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Proms BBC Andrea Lupi / Produção: Susana Valente

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Out.Fest 2014

Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro

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Out.Fest 2014 Out.Fest 2014

 

Desde 2004 que o OUT.FEST - Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro tem vindo a fazer da cidade da Margem Sul um ponto encontro obrigatório das periferias (musicais, geográficas, comunitárias), bandeira da liberdade criativa, da diluição de rótulos e géneros e celebração da pulsão comum subjacente ao som como libertação, revelação e revolução.

Na sua 11ª edição, a decorrer entre 2 e 5 de Outubro, voltará a mostrar o porquê de ter colocado o termo "exploratório" no léxico de todos quantos creem na música como forma de expressão inigualável daquilo que é propriamente humano, que é aventureiramente humano, em mais quatro dias de simbiose entre cidade e som, criador e público, periferia e proximidade.

Serão apresentados 14 concertos, 5 deles de entrada livre, que levarão a diversas salas do Barreiro várias gerações de criadores de proveniências tão diversas como os Estados Unidos da América, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Líbano, Áustria e, claro, Portugal. Alguns dos destaques vão para a estreia nacional do Peter Evans Quintet ou do duo Peter Brötzmann & Steve Noble, bem como para o regresso dos lendários germânicos Faust e do austríaco Christian Fennesz.


PROGRAMA


2 OUTUBRO  21H30 BE JAZZ CAFE

PETER BRÖTZMANN & STEVE NOBLE (Alemanha/Reino Unido)
Por vezes delicados e swinging, por vezes emissão frontal free jazz, como patente no disco do ano passado na Trost Records 'I Am Here Where Are You', este extraordinário duo de saxofone & bateria apresentar-se-á em estreia nacional, no OUT.FEST no Barreiro e no Amplifest no Porto. Noble é um excelente baterista, com um passado rico na geração do pós-punk (integrou os Rip Rig and Panic) e um apetite insaciável por ritmos Africanos (estudou com o mestre nigeriano Elkan Ogunde), sendo um regular tropa na cena free jazz britânica, nomeadamente na Company Weeks de Derek Bailey no final da década de 80 e outras formações nos anos 90 com luminárias como Lol Coxhill ou John Edwards. Peter Brotzmann é já matéria de lenda viva; o germânico decano (já passou dos 70 anos) e padrinho do free jazz em território europeu, lançou o inquebrantável "Machine Gun" em 1968, nutriu bandas decisivas como a Globe Unity Orchestra ou os Last Exit, para além de um historial de duos com bateristas impressionante, pela sua vibração e perenidade, de Hans Bennink a Hamid Drake, que é, há quem garanta, a melhor forma de o testemunhar, para além de todas as celebradas formações alargadas que foi dirigindo ao longo dos anos.

NORBERTO LOBO (Portugal)
Norberto Lobo é o aclamado músico e guitarrista a quem já começam a escassear os superlativos para atribuir à sua música e percurso, desde que se estreou em disco com o clássico Mudar de Bina, em 2007. O seu mais recente Mel Azul, seu quarto registo de estúdio, foi considerado um dos melhores álbuns nacionais de 2012 pelas principais publicações e pelo mundo online da especialidade, com destaque para o prémio de disco do ano da revista Time Out Lisboa, depois da influente revista BLITZ ter atribuído ao seu anterior Fala Mansa a distinção de disco nacional em 2011. Na música de Norberto Lobo, um original e um independente, reside uma qualidade rara nas progressões estéticas da criação sonora dos dias de hoje. A ideia nova, a busca pelo inaudito, coexiste nela com a composição e a interpretação enquanto exercício pessoal de comunicação e de desbravamento em comunhão com o público. Norberto Lobo não pertence a nenhuma escola mas estará seguro que terá muito a aprender com praticamente todas (senão todas mesmo), nem qualquer tentativa de descrição do seu trabalho estará minimamente completa se a associar a uma ou outra linhagem em particular. Já partilhou palcos ou digressões com variadíssimos músicos internacionais, como é o caso Lhasa de Sela, Devendra Banhart, Larkin Grimm, Naná Vasconcelos ou Rhys Chatham, e regularmente tem empreendido séries de datas na Europa, com destaque para aparições ao vivo em Londres cada uma mais memorável que a precedente (Café Oto, Fundação Gulbenkian na capital inglesa, Hackney Round Chapel com os Dead Combo), bem como tours sucessivas em território da Escandinávia, onde se lhe conhece um culto assinalável.



3 OUTUBRO  21H30 CASA DA CULTURA DA BAÍA DO TEJO

DEAN BLUNT (Reino Unido)
Dos mais falados artistas britânicos dos últimos anos, no 'submundo' das músicas exploratórias, e personagem misteriosa e esquiva a qualquer conceção estanque que se possa fazer à sua persona, Dean Blunt continua a minar expectativas em relação à sua obra, enveredando por caminhos sempre imprevisíveis como uma segunda natureza. Desfeitos que estão os Hype Williams, banda/cometa que lhe deu pela primeira vez tempo  de antena alargado, e tendo já dado mostras de ser verdadeiro crooner amargurado de uma idade digital no que esta tem de mais fragmentado e de busca de novos caminhos de expressão - voz anteriormente irreconhecível, soterrado por entre as batidas roufenhas e teclados fractais - no muito celebrado 'The Redeemer', Blunt regressa agora a Portugal nas vésperas da edição de 'Black Metal', com selo da lendária Rough Trade. Pelo meio, e na senda desse espírito inquieto, Blunt atirou-se também ao free jazz comunal numa muito elogiada performance no Café OTO e revelou- se também enquanto artista plástico com duas exposições na galeria Hackney. Um dos artistas e criadores mais imprevisíveis da atualidade, e integrante do seleto grupo para quem a experimentação não diz um género mas um verdadeiro processo de descoberta.

FENNESZ (Áustria)
Compositor e músico austríaco decisivo na história recente do cânone da eletrónica, Fennesz tem usado a guitarra e o computador para produzir alguma da linguagem musical mais vibrante e intensa neste campo. Fundamentalmente desde a edição do clássico da nossa era, 'Endless Summer' em 2001 na Mego, que a sua influência sobre o panorama da música independente que lhe prestou a devida atenção e retirou lições de vitalidade, tem sido reconhecida como determinante, sendo altamente cotado o seu trabalho textural inovador para a guitarra e a sua abençoada aptidão melódica subjacente às lânguidas camadas de processamento de efeitos e contra-campos de ruído que desenha nos seus temas, uma assinatura reconhecida à distância, épica, evocativa, do domínio do belo. Para além do inconstante mas carismático trio Fenn O'Berg, com Peter Rehberg e Jim O'Rourke, nos últimos anos colaborou com Ryuichi Sakamoto, no álbum assinado a dois 'Cendre', com os Sparklehorse, e David Sylvian, entre outros, e apesar da ligação à Touch de alguns anos, editou este ano o muito bem recebido novo álbum 'Bécs', num feliz regresso à Mego.

PETER EVANS QUINTET (EUA)
Trompetista radicado em Nova Iorque, Peter Evans tem-se distinguido como um dos produtos mais evoluídos e avançados do estudo, num campo que une as práticas e as histórias do trompete, do jazz e da composição contemporânea, na direção do avanço destas formas, instrumentação e escola. Surge já numa fase de maturação avançada da miscigenação destas linhagens, onde a legibilidade melódica e harmónica continua em perene evolução, as estruturas harmónicas se informaram por todo o tipo de colateralidades da era pós-moderna, e os instrumentos de sopro foram informados pelo jazz até Coltrane, e daí - técnica mas também humanamente falando - por Evan Parker, Braxton, e outros visionários desse altíssimo calibre. Estreia-se no OUT.FEST com o seu fenomenal quinteto, formado com Jim Black, Sam Pluta, Tom Blancarte e Carlos Homs, que desencadeou comoção e reverência justificada no mundo do jazz aquando da edição do seu álbum de estreia - e único até ao momento - 'Ghosts', em 2011, na sua editora More is More. Para além do concerto, teremos oportunidade rara para testemunhar uma masterclass, pelo próprio Evans, na Escola de Jazz do Barreiro.




4 OUTUBRO  17H00 BE JAZZ CAFE

OPEN MIND ENSEMBLE (Portugal)
Grupo sediado maioritariamente na capital e composto por vários dos notáveis do panorama jazzístico e improvisacional nacional (entre eles também com uma das figuras maiores do jazz no Barreiro, o saxofonista Francisco Andrade) que combina a improvisação livre com a direção musical de Luís Bragança Gil, cuja orientação intervém na criação que os músicos (Miguel Mira no violoncelo, Bruno Parrinha no clarinete e sax soprano, Luís Vicente na trompete, Paulo Pimentel no piano e João Lencastre na bateria) produzem, conduzindo e originando uma estrutura musical que também ela está a ser criada em tempo real. O resultado é um grande ecletismo de linguagens e grandes contrastes estilísticos, que potencia, paradoxalmente, tanto a criação individual muito pessoal de cada músico como uma notável coesão de conjunto.

RODRIGO AMADO WIRE QUARTET (Portugal)
Rodrigo Amado é, atualmente, um dos músicos de jazz nacionais com maior projeção a nível internacional e o seu Wire Quartet, que finalmente lançou o seu primeiro registo homónimo na Clean Feed este ano, tendo recebido da crítica especializada laudos louvores, reúne três dos mais intensos e criativos improvisadores do nosso país - o guitarrista Manuel Mota, o contrabaixista Hernâni Faustino e o baterista Gabriel Ferrandini. Amado procura levar nesta sua 'working band' mais longe o seu próprio conceito de liberdade, uma mistura poderosa de elementos em que o espírito do bebop e o fogo do free-jazz se unem sob o signo da improvisação livre e da composição em tempo real.




4 OUTUBRO  21H30 PAVILHÃO DO GRUPO DESPORTIVO FERROVIÁRIOS
FAUST (Alemanha)
'There is no group more mythical than Faust' ('não há grupo mais mítico que os Faust') escreveu Julian Cope no seu livro Krautrocksampler, onde contribuiu de forma decisiva para ilustrar a influência indelével do grupo alemão no desenvolvimento das texturas musicais ambientais e industriais a partir do início da década de 70. Estiveram na Virgin, que lançou o icónico 'The Faust Tapes' em 1973 - compêndio de gravações artesanais compilado por um fã -, colaboraram com Tony Conrad no incontornável 'Outside the Dream Syndicate', afastaram-se e regressaram na década de 90, então já com novo afeto e entendimento do mundo em redor sobre a sua proposta radical informada pela musique concrète, a teoria e obra de
Stockhausen e pelos Velvet Underground, que não raras vezes produzia trechos de uma candura pastoral de beata beleza. Na formação que se apresentará no OUT.FEST, em vésperas de lançamento do novo álbum 'Just Us' contaremos com o duo nuclear atual da banda e membros originais Jean-Herve Peron e Werner "Zappi" Diermaier, que integrarão no concerto materiais sonoros recolhidos em périplo pelo Barreiro.

THE EX (Holanda)
Como escreveu o jornalista José Marmeleira aquando da estreia deste incontornável coletivo holandês na ZDB há dois anos "Nenhuma banda moldada pelos anos de chumbo do punk vive hoje com a mesma liberdade e juventude. E agita os corpos e as consciências com o mesmo vigor." Com origem no final da década de 70, logo se tornou claro o seu abnegado intento em direcionar a energia da música popular ao serviço de uma militância política, dispensando contudo fundamentalismos estéticos ou de prática vivencial, colocando-os assim a par do pós-punk poetizado de imagens e groove das Raincoats ou dos Fall. Ao longo dos anos travaram-se de amores reciprocados com os Sonic Youth e uma cumplicidade com Steve Albini também vem de longe, para além do disco 'In the Fishtank 9' de 2001 gravado com os Tortoise, mas os The Ex não se limitaram a quedar no campeonato repisado das guitarras-baixo-bateria do continuum punk. Esta estrutura-atitude base tem vindo a integrar outros instrumentos - sopros, eletrónica, acordeão, .. - e idiomas musicais experimentados e celebrados no território de origem, como a
colaboração em 2006 com o saxofonista etíope Getatchew Mekuria, oferecendo-se como a sua banda em estúdio para o disco 'Moa Anbessa', e o interesse por canções folk de latitudes diversas, que cotam os The Ex como um dos indisputados bastiões europeus e mundiais da verdadeira criação além-géneros e de uma integração quase inimaginavelmente livre de sons, proveniências e tradições num todo radicalmente novo.

MAGIK MARKERS (EUA)
Os Magik Markers regressaram no ano passado aos discos com o fabuloso 'Surrender To The Fantasy' na Drag City, promovendo-o com bem sucedidas tournées norte-americana e europeia, com passagem pela fúnebre edição 'End of an Era pt. 1' do histórico festival All Tomorrow Parties. Depois da vertigem prolífica e leonina entre 2005 e 2009, editando pelo menos 12 álbuns, CD-Rs, singles e EPs, o período seguinte a 'Balf Quarry' de 2009 pareceu indiciar uma hibernação ambígua. Mas estes carismáticos vândalos sónicos literatos, que tomaram o seu tempo até aprimorar a sua escrita de canções para um nível de equilíbrio entre o inteligível e o mistério só ao alcance dos abençoados pela Perspetiva, regressam ao nosso país em trio renovado; a Elisa Ambrogio, guitarra e voz, e Pete Nolan, bateria, junta-se agora o baixista John Shaw.

PUTAS BÊBADAS (Portugal)
Surgidos na 'matilha' continuamente agitadora e vital que é a Cafetra (editora e coletivo lisboeta que reúne alguma da mais promissora música nacional dos últimos anos), os Putas Bêbadas representam aquilo que de mais estertor e vicioso poderá ainda sobreviver no rock. Contando com elementos de bandas como Passos em Volta, Kimo Ameba ou Iguanas, encarnam a Cafetra no seu limite mais ruidoso, atirando com o punk para um vortex de som de onde se soltam palavras ininteligíveis a discorrer sobre banalidades tão estúpidas quanto perigosamente reais, de ironia a traço grosso - como seria de esperar de uma banda com este nome. Rock no limite do noise, numa "tradição" bastarda que passa pelos Germs, Dead C ou Rallizes Dénudes, que levou até a rasgados elogios da parte de Julian Cope ao
álbum de estreia 'Jovem Excelso Happy' e a uma atuação no reputado festival Kraak em Bruxelas.


5 OUTUBRO  17H00 CONVENTO DA MADRE DE DEUS DA VERDERENA

CHARLES COHEN (EUA)
Poderá soar a hipérbole, mas é a verdade: alguma da mais vital música electrónica que ouvimos em tempos recentes foi gravada há cerca de 30 anos por um artista norte-americano relativamente desconhecido de seu nome Charles Cohen. Inspirado pelos tons que ouviu na música de Morton Subotnick, foi no entanto o seu encanto pela música de Sun Ra e Cecil Taylor que o ajudou a encontrar o seu caminho original no que poderia ser tocar música electrónica de uma forma livre e fluída, no seu inseparável Buchla Music Easel, uma raridade originada pelo criador pioneiro de sintetizadores Donald Buchla. Sediado em Filadélfia e membro da comunidade local de música avant-garde após se ter aborrecido com os tempos de ensaios das produções de dança e teatro para as quais fazia música no início da década de 70 na Temple University, o seu arquivo de gravações tem vindo a ser editado no selo Morphine de Rabih Beaini desde o ano passado para incredulidade alargada da comunidade melómana. Tal se precipitou porque um amigo de Cohen estava em Berlim numa rave e reconheceu um dos temas como algo que o artista teria produzido cerca de duas ou três décadas atrás. Ao falar com o DJ no final, percebeu que este não fazia ideia alguma sobre o criador daquele trecho audio. De alguma forma esta história chegou aos ouvidos de Beaini, libânes sediado em Veneza que tem o seu próprio percurso enquanto produtor de techno sob o nome Morphosis, e convenceu Cohen a trabalhar com ele para dar a conhecer ao mundo o que tinha permanecido até então em circuitos restritos. Desde então Charles Cohen tem vindo a tocar cada vez mais na Europa, em festivais como o CTM em Berlim, Unsound em Cracóvia, entre outros, para além do contributo generoso que tem encetado em palestras, debates e workshops sobre o seu honorável percurso e método de trabalho.

RABIH BEAINI (Líbano)
Produtor e DJ nascido no Líbano, Rabih Beaini (também conhecido por Morphosis) é reconhecido pelo seu techno analógico imaginativo e texturalmente intricado, inspirado pela sua devoção ao canône jazz. Os seus mais recentes albuns 'Albidaya' (Annihaya Records) e 'Dismantle/Music For Vampyr' (Honest Jon's), seguiram-se à sua estreia em 2011 'What Have We Learned' (Delsin). Na sua editora Morphine, para além do prestigiado serviço prestado com a publicação da música de Charles Cohen, lançou também registos de produtores como Madteo, Hieroglyphic Being e Anthony 'Shake' Shakir.




1,2 e 3 OUTUBRO  TEATRO MUNICIPAL DO BARREIRO

Workshop CARLA BOZULICH (EUA): Unlearning how to behave by abusing sound until it's beautiful and we all disappear
Workshop conduzido e desenhado pela performer e escritora de canções norte-americana Carla Bozulich, figura central da música independente nos últimos 30 anos, dirigido principalmente a músicos de todas as formações - do amador, ao curioso ao profissional -, mas também totalmente aberto a participantes das áreas criativas extramusicais que queiram participar. O trabalho realizado em grupo
surge através da ótica e prática de orquestração de pessoas que a artista se habituou a organizar para as suas próprias formações, e nos vários workshops deste tipo que já realizou. A ideia e filosofia subjacentes terão sempre que ver com o princípio de desaprender aquilo que nos tolhe a criatividade, o questionar hábitos e práticas criativas, técnicas, de escuta e de ação, no sentido de olharmos para a prática sonora com olhos limpos. Este workshop é aberto a todas as pessoas, de todos os sexos e todas idades acima dos 16 anos, e culmina com uma performance pública após 3 dias de trabalho conjunto.
(informações e inscrições para o mail workshops@outra.pt)


3 OUTUBRO  15H30 ESCOLA DE JAZZ DO BARREIRO

Masterclass PETER EVANS (EUA)


4 OUTUBRO  16H00 TEATRO MUNICIPAL DO BARREIRO

Concerto / final workshop CARLA BOZULICH & Grupo Workshop (EUA)