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Raízes Inês Almeida

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Carl Orff

(1895 – 1982)

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Carl Orff Carl Orff
Carl Orff ficou mundialmente famoso com a cantata Carmina Burana. Teve um ambiente musical em família desde criança. O pai era militar, tocava piano e uma grande variedade de instrumentos de corda. A mãe, uma pianista experiente, reconheceu e encorajou o talento musical do filho, deu-lhe as primeiras lições.
Carl começou pelo piano aos cinco anos, e dois anos depois com o violoncelo. Com apenas oito anos, o jovem Carl já frequentava teatros e concertos. Em breve estaria a compor música para o seu teatro de marionetes.
Estudou música na Academia de Música de Munique até 1914, altura em que integrou o exército que combateu durante a Primeira Guerra Mundial, na qual foi várias vezes ferido.
Em 1925 foi cofundador da Guenther School, para atividades físicas, música e dança, na qual trabalhou até ao final da vida. Esse constante contacto com as crianças levou-o a desenvolver as suas teorias de educação musical.
Orff tinha uma certa relutância em chamar óperas às suas obras. A Der Mond (a Lua) chamou-lhe Märchenoper (Ópera de conto de fadas). Die Kluge (A Mulher Sábia) segundo ele também se incluía na mesma categoria. Em ambas existe o mesmo som medieval.
Sobre Antígona, alegou que não era uma ópera, mas sim uma configuração musical de uma tragédia arcaica.
Antígona chegou a ser musicalmente definida como minimalista. O texto é uma excelente tradução para alemão da peça de Sófocles do mesmo nome. Sem dúvida que Orff teve uma enorme paixão pela poesia medieval. Os Carmina Burana são textos poéticos escritos pelos goliardos, contidos num importante manuscrito do século XIII, o Codex Latinus Monacensis, encontrados num Convento da Baviera durante o ano de 1803.
Os goliardos eram clérigos pobres, desamparados pela Igreja, que se tornaram itinerantes vagabundos, de espírito transgressivo e provocador.
Em meados do século XIII vagueavam pelas tabernas, e pelas portas das Universidades, cantando e declamando os seus poemas satíricos, muitas vezes denunciando os abusos e a corrupção da própria Igreja, bem como poemas eróticos frequentemente ousados. Os goliardos, são afinal jovens intelectuais de espírito livre que, pela sua condição económica e social, são impedidos de se tornarem professores das universidades medievais ou mesmo de prosseguir os seus estudos, tornando-se intelectuais marginalizados, rebeldes, vivendo de expedientes, eventualmente ao serviço dos ricos, seguindo o mestre preferido ou permanecendo onde ensinam professores famosos.
Anárquicos, são opositores de todos aqueles que se reconhecem nas castas sociais medievais, não só os que estão associados ao poder eclesiástico ou político, mas também os que estão presos à mediocridade e à ignorância, como os camponeses.
A poesia dos goliardos era uma expressão natural do espírito das tabernas e confrarias, descritos como sendo a ala esquerda da corporação clerical. O facto de terem formação erudita, permitia-lhes compor, por vezes na clandestinidade, canções de teor satírico, amoroso e até mesmo licencioso.
Na Idade Média existe também uma vertente goliardesca na literatura, que do mesmo modo, expressa esse caráter debochado do indivíduo que se dedica aos jogos, às mulheres e aos prazeres mundanos. Essa tendência ao amor, ao jogo e ao vinho marcam as composições poéticas em Carmina Burana. É a exaltação dos prazeres carnais e a crítica à Igreja medieval, que condena os costumes libertinos.
Na obra de Carl Orff, Carmina Burana é uma cantata encenada, a primeira de uma trilogia intitulada Trionfi Trittico que inclui Catulli Carmina e Trionfo di Afrodite. Orff descreve Carmina
Burana como “a celebração de um triunfo do espírito humano pelo balanço holístico e sexual”.
A primeira apresentação de Carmina Burana foi na Ópera de Frankfurt em junho de 1937. Causou uma grande impressão sobre o público, e a aclamação mundial que recebeu a partir daí, prova que não perdeu nada do seu efeito hipnótico. Foi a obra mais famosa da Alemanha nazi, a tal ponto que Orff recebeu subsídios para compor música para Um sonho de uma noite de verão, já que a música de Mendelssohn tinha sido banida. O facto é que Orff já tinha composto, em 1917 e em 1927 música para esta peça, muito antes que isso fosse um favor para o Governo nazi. Depois da guerra, Orff alegou não estar satisfeito com a música, e acabou por refazê-la numa versão final que estreou em 1964.
A última obra de Orff, De Temporum Fine Comoedia, levou dez anos a compor. Estreou no Festival de Salzburgo em 1973, interpretada pelo Coro e Orquestra Sinfónica da Rádio de Colónia, dirigida por Herbert von Karajan.
A associação de Orff com o regime nazi nunca foi provada. Orff era amigo de Kurt Huber, um dos fundadores do movimento de resistência da Rosa Branca, condenado à morte, e executado pelos nazis em 1943. Na véspera da execução, Orff recebeu um pedido da mulher de Huber para que ele usasse a sua influência para salvar o marido, mas Orff recusou.
Depois da Segunda Guerra Mundial, Orff viu a possibilidade da renda dos direitos de autor sobre Carmina Burana baixarem drasticamente devido ao processo de desnazificação.
Ao longo do tempo, todo o trabalho de Carl Orff foi ficando sombreado pelo impacto de Carmina Burana. A variedade de trabalhos cénicos, nos quais combina a inspiração de mistérios medievais, contos populares, e de tragédias gregas, confere a Carl Orff o poder de uma das personalidades mais criativas do século XX.
Outro importante trabalho de Orff foi na vertente pedagógica, tendo desenvolvido um conceito para a educação elementar de música e dança para crianças que foi adotado por mais de trinta países em todo o mundo desde há mais de 50 anos.