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Livro das Horas | A República dos Sonhos

Nélida Piñon

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Livro das Horas | A República dos Sonhos Livro das Horas | A República dos Sonhos

Livro das Horas e A República dos Sonhos de Nélida Piñon

A leitura de Nélida Piñon é sempre um acontecimento. A escritora brasileira faz do leitor um confidente, tece as palavras como filigrana, é uma herdeira de Sherazade, e uma imortal da Academia Brasileira de Letras. Neste programa, converso com Nélida sobre o seu mais celebrado romance, A República dos Sonhos, agora em nova edição portuguesa com a chancela Temas e Debates/Círculo de Leitores. A grande aventura dos que saíram da Galiza e atravessaram o Atlântico para procurar uma vida melhor no Brasil. E também sobre o Livro das Horas, páginas de memórias e interrogações, sobre o prazer da escrita e a aventura da vida, que revela, uma vez mais, a enorme erudição que esta vencedora do Prémio Príncipe das Astúrias alia a uma rara imaginação.

Luís Caetano


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De Livro das Horas, Nélida Piñon

“Não sou forte e nem poderosa. Tampouco estou na flor dos vinte anos. Não faz falta enaltecer o meu retrato que a mãe Carmen outrora pendurou em seu quarto antes de morrer, com a intenção de eternizar a juventude da filha na sua retina. Quem sabe pretendendo que os anos vividos não lhe roubassem a memória que ainda guardava de mim. Mas quem seja eu hoje, não pude combater as rugas, o declínio, para lhe fazer a vontade. Levo no rosto uma história curtida e que me ajuda a envelhecer. Não vivi sem resultados, minha vida não foi inóspita. Sempre que mencionam em tom de elegia de como era nos áureos anos, sorrio. Recordo, agradecida, uma trajetória intensa e ruborizo¬ ¬me. A beleza, a esta altura, não me lisonjeia. Opto por ser a heroína das ideias e das ações que desenvolvi, em especial por me haver submetido ao que o corpo e a imaginação me ditaram. Releio Tristão e Isolda e me perturbo. O poema tece loas à carne que estremece e sonha, e ao amor desmedido. Sobretudo quando certos versos anunciam o avanço da morte prestes a emboscar os aman¬tes. Uma construção poética que, havendo talvez nascido na corte de Marie de France, filha de Leonor de Aquitânia, sob a forma inicial de lais, cruzou a Mancha a caminho da selvagem Bretanha. O território cuja latitude lendária propiciava desatinos, desfechos trágicos. Também Wagner, na sequência do poema, consagra este amor sob os efeitos de um filtro mágico. Concede¬ lhe origem espúria e controvertida ao longo da travessia marítima a que se submetem Tristão e Isolda, prometida do rei Marc de Cornualha, e a ama Brangien. Na primeira visita a Bayreuth, para a temporada operística, percorro o teatro concebido por Wagner com a sensação de imitar Pedro II, o imperador do Brasil, presente na inauguração do prédio inteiramente concebido pelo compositor. Sentada na cadeira que o próprio Wagner projetou com inconcebível desconforto, tendo em vista impedir que o espectador caísse no sono dada a extensão das apresentações, eu não me movia. O corpo parecia petrificado, presa fácil da emoção. Sob o beneplácito do gênio alemão, percorri a cidade, rastreando¬ ¬lhe a figura e a da esposa Cosima, de ilustre dinastia, filha de Liszt e da Condessa d’Agoult. A mãe, além de parir filhos ilegítimos do extraordinário pianista, publicara o romance Nélida com o pseudônimo de Daniel Stern. Um livro lido na adolescência, atraída pelo título. Na mesma ocasião havendo lido o outro Nélida, de Renata Halperin, autora argentina. Movida decerto pela curiosidade de saber o que se escondia sob a custódia de um nome que ambas as mulheres elegeram e que se concentrava agora na minha pessoa.“