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Raízes Inês Almeida

Ópera

Händel | Xerxes | 8 Dezembro 18h00

Mezza-Voce

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Händel | Xerxes | 8 Dezembro 18h00 Händel | Xerxes | 8 Dezembro 18h00

© Marcia Lessa / F. Gulbenkian


8 Dezembro | 18h00

Programa Mezza-Voce    
Apresentação e Realização: André Cunha Leal 
Produção: Susana Valente     


Gravação da Rádio e Televisão de Portugal (RTP)
na Fundação Calouste Gulbenkian, 
a 28 outubro 2018


Georg Friedrich Händel | Xerxes (Serse, HWV 40)
Versão Concerto


Xerxes: Franco Fagioli (CT)
Arsamene: Vivica Genaux (MS)
Amastre: Delphine Galou (CA)
Ariodate: Andreas Wolf (BT)
Romilda: Inga Kalna (S)
Atalanta: Francesca Aspromonte (S)
Elviro: Biagio Pizzuti (BT)

Cravo e Direção de Maxim Emelyanychev 




Depois de várias presenças ao longo das últimas temporadas, a orquestra il pomo d’oro – um dos agrupamentos atuais mais importantes no âmbito do movimento interpretativo em instrumentos de época – regressa à Gulbenkian Música para acompanhar o virtuoso contratenor argentino Franco Fagioli como protagonista da ópera Serse de Händel. A primeira colaboração de Fagioli com il pomo d’oro no Grande Auditório colheu um entusiástico aplauso consensual, confirmando-o como um intérprete de exceção que alia a sua invulgar qualidade técnica a uma rara densidade emocional.


Para saber mais sobre esta récita, clicar aqui.




Xerxes (Serse, HWV 40)

Ópera em 3 atos

Música de Georg Friedrich Händel (Halle, 23 de fevereiro de 1685 - Londres, 14 de abril de 1759)
Libreto de autor desconhecido, adaptado da ópera homonima de Giovanni Bononcini por Silvio Stampiglia.
Foi composta entre dezembro de 1737 e 14 de fevereiro de 1738. A sua estreia teve lugar pouco depois, em Londres, a 15 de abril.


Para saber mais sobre o argumento desta ópera, clicar aqui.




Notas ao concerto (Gulbenkian/Música)

A carreira de Georg Friedrich Händel – compositor germânico que se viria a naturalizar inglês como George Frideric Handel – é pautada por um cosmopolitismo e uma adaptação constante aos novos estilos e gostos dos diferentes públicos que o receberam.
Em Itália absorveu diversos estilos que levou para Londres, onde implantou a ópera italiana e criou a oratória inglesa. Durante os anos 20 dominou a cena operática britânica com a Royal Academy of Music, resistindo à concorrência de outras companhias e compositores, até meados dos anos trinta, quando a ópera foi deixando de ser a sua prioridade.
No final de outubro de 1737, Händel regressava a Londres após uma estadia em Aix-la-Chapelle, onde tinha recuperado quase milagrosamente de uma paralisação temporária da mão direita.
Após anos de constante competição com a Opera of the Nobility, recentemente falida, não arriscou uma nova temporada por sua conta e trabalhava agora para o King’s Theatre, Haymarket, onde partilhava encomendas com Pescetti e Veracini numa temporada organizada por Heidegger. Nesta fase explorava também a oratória inglesa, percebendo a mudança de gosto do público.
Entre 1737 e 1741 parecia querer manter ambas as opções – ópera italiana e oratória inglesa – em aberto, desenvolvendo uma e outra consoante as oportunidades que iam surgindo. Händel tinha recebido uma encomenda para duas novas óperas quando o teatro fechou temporariamente pela morte da Rainha Carolina. Após esse interregno, a primeira ópera, Faramondo, estreou em janeiro.
Serse foi apresentada em 15 de abril de 1738 com reações adversas, resistindo durante cinco récitas. O elenco provinha quase todo da Nobility e era encabeçado por Caffarelli (Gaetano Majorano), de quem se esperava ser o novo Farinelli, tarefa difícil de atingir. 
Serse é uma ópera sui generis na produção de Händel. As suas óperas dos anos 20 enquadravam-se nos cânones da opera séria, baseada na separação entre tragédia e comédia, com enredos explorando temas como o heroísmo, o dever, a inveja, a ambição, com os incontornáveis amor e morte e uma estrutura baseada em recitativos e árias em forma Da Capo. 
Os textos de Serse são adaptados do libreto veneziano de Silvio Stampiglia, que havia já sido usado por Giovanni Bononcini  (1694) e anteriormente por Francesco Cavalli sobre a versão original do libretista Niccolò Minati de 1654. Coloca a ação na Pérsia em 470 a.C. e é livremente baseado na história de Xerxes I documentada na obra Histórias de Herodotus de Halicarnasso (c. 490-c. 420 a.C.), aquela que foi a primeira tentativa de sistematização de acontecimentos ocorridos ao longo do tempo. A veracidade histórica é relativa. Algumas das personagens (Xerxes, Amastre e Arsamene) existiram de facto, bem como o regresso vitorioso da Grécia e a queda da ponte de Hellespont, construída com o intuito de unir a Ásia à Europa através do atual estreito de Dardanelos na Turquia.
Händel trabalhou sobre um libreto típico do século XVII e pouco compreensível para o público londrino do século XVIII que provavelmente não esperava a introdução de um buffo (Elviro) numa ópera séria, bem como outros elementos que Apostolo Zeno e Pietro Metastasio já tinham excluído da estrutura dramática da sua reforma da ópera. Igualmente inesperada para o público foi a utilização de árias mais breves fora da estrutura Da Capo. A utilização destas características não foi com certeza inconsciente, e terá sido influenciada pelas recentes ballad operas de Carey e Lampe, que Händel de algum modo apreciava. 
Segundo alguns musicólogos, terá sido uma “tentativa desesperada” de acompanhar o gosto do momento, com um estilo, em termos de personagens e de situações, mais próximo do teatro britânico da época do que das óperas italianas apresentadas em Inglaterra até então. Händel estaria também ao corrente do panorama italiano contemporâneo, nomeadamente da emergência da ópera cómica napolitana de Vinci e de Leo. A opera seria italiana estava a chegar ao fim.
Redescoberta em 1924 no Göttingen Handel Festival, Serse tornou-se numa das óperas mais atrativas de Händel e algumas das características que confundiram o público no século XVIII, como o tom ligeiramente irónico e ocasionalmente burlesco, os episódios sérios pontuados por elementos cómicos e uma estrutura fluída com ariosos curtos e poucas árias Da Capo completas tornaram-se na chave do seu sucesso, apelativas para o público dos séculos XX e XXI. 
Handel reutilizou partes da música de Bononcini, o que pode ter contribuído para uma sensação de anacronismo estilístico. Uma boa parte das árias e duetos são curtos, sem segunda secção, lembrando uma época em que as distinções entre ária, arioso e recitativo estavam mais diluídas do que no século XVIII.
A abertura é ao estilo francês, com uma secção lenta em ritmos pontuados seguida de outra mais rápida em fugato e ainda uma giga, ao que se segue um recitativo acompanhado e o célebre arioso “Ombra mai fu”, onde o protagonista contempla um plátano agradecendo a sombra que ele proporciona, apresentando-se sereno (quase ridículo na adoração à árvore) sem a crueldade e as superstições que historicamente o caracterizam. Elviro, interpretado na estreia por Antonio Lottini, conhecido em Londres pelos papéis cómicos nos intermezzi italianos, tem árias curtas e tecnicamente simples, à exceção da despropositada pelo seu virtuosismo “Ah, tigre infedele”. Romilda, com a sua voz cativante acompanhada por duas flautas de bisel canta “Va godendo” sobre as vítimas do amor, comparando-as com um ribeiro que corre em direção ao mar.
A primeira ária de Serse contrasta com “Crude furie dgl’orridi abissi”, já no final da ópera, quando dá asas à sua raiva. Em divisão ternária, os violinos com escalas descendentes em fusas e trémulos nas cordas é talvez o ponto alto da trama e da obra, ao qual se segue a perplexidade generalizada, seguida de uma mensagem moral e de um final feliz.




A orquestra Il pomo d’oro foi fundada em 2012. Inicialmente focada no repertório da ópera barroca, tem vindo a dedicar-se progressivamente à música instrumental.
Os seus músicos são especialistas no domínio da interpretação autêntica em instrumentos de época. Em conjunto com o jovem maestro Maxim Emelyanychev, formam um agrupamento de grande qualidade que combina o conhecimento estilístico com a desenvoltura técnica e o entusiasmo artístico.
O nome da orquestra refere-se ao título de uma ópera de Antonio Cesti, composta para o casamento do Imperador Leopold I da Áustria com Margarita Teresa de Espanha, em Viena, em 1666. A ópera constituiu a parte final de uma celebração imperial de grande esplendor que incluiu impressionantes efeitos especiais.
Il pomo d’oro foi provavelmente a mais excessiva e dispendiosa produção operática na então curta história da ópera. 
Il pomo d’oro gravou seis óperas: Tamerlano e Partenope de Händel e Catone in Utica de L. Vinci, dirigidas por Riccardo Minasi; Ottone de Händel, dirigida por George Petrou; La Doriclea de A. Stradella, dirigida por Andrea de Carlo; e Serse de Händel, dirigida por M. Emelyanychev. 
A colaboração com o violinista e maestro R. Minasi esteve também na base da primeira gravação premiada, Vivaldi: Concerti per Violino IV “L’Imperatore”. A segunda gravação, Concertos para Violino “Per Pisendel”, de Vivaldi, com o solista e maestro D. Sinkovsky, recebeu o Diapason d’Or. O álbum Arias for Caffarelli recebeu o Choc de l’année 2013 da revista francesa Classica. Outras gravações incluem: Concerti per due violini e archi (Vivaldi), com R. Minasi e D. Sinkovsky; o CD Giovincello, com o violoncelista Edgar Moreau, merecedor do prémio ECHO Klassik 2016. Com Joyce DiDonato gravaram também In War and Peace, seguindo-se apresentações em concerto nos Estados Unidos da América e na Europa.
A orquestra Il pomo d’oro apresentou-se em muitos dos principais palcos da Europa e da América do Norte, incluindo Théâtre des Champs-Élysées (Paris), Theater an der Wien, Herkulessaal de Munique, Barbican Centre e Wigmore Hall (Londres) e Carnegie Hall de Nova Iorque. Desde 2015, apresentou-se em todas as temporadas Gulbenkian Música.



Fotos Marcia Lessa / F. Gulbenkian