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Alexandre Delgado | O Pequeno Abeto

Cantata para Coro e Orquestra

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Alexandre Delgado | O Pequeno Abeto Alexandre Delgado | O Pequeno Abeto

O Pequeno Abeto

Cantata de Alexandre Delgado para Coro e Orquestra
baseada no conto de Andersen


Academia Musical dos Amigos das Crianças (AMAC) estreou em junho de 2017 a cantata O Pequeno Abeto de Alexandre Delgado (n. 1965), baseada no conto de Hans Christian Andersen, para coro infantil e juvenil, orquestras de cordas, de sopros e de guitarras, percussões, piano solo e narração. 
Foi um espetáculo que reuniu todas as classes de conjunto da AMAC, com 220 crianças e jovens em palco.

O Pequeno Abeto, que Alexandre Delgado compôs em 2016 a pensar nos alunos da AMAC, conta a história da árvore que vive na impaciência de ter um futuro radioso, que não aprecia à floresta e só pensa em crescer, até que um dia é cortada, levada para a cidade e enfeitada como árvore de Natal. 
Metáfora da tendência humana para não dar o devido valor àquilo que se tem, esta versão musical foi gravada ao vivo pela Antena 2 e editada num vídeo realizado por Paulo Porfírio.





A AMAC (antiga FMAC) foi fundada em Lisboa 1953 por Adriana de Vecchi, com o apoio de seu marido Fernando Costa (1º Violoncelista da Orquestra da Emissora Nacional). Em conjunto criaram uma escola que foi pioneira em Portugal do ensino musical a partir da infância. 
A Orquestra Juvenil da AMAC, que se mantém ininterruptamente em atividade até aos dias de hoje, contribuiu para a formação de muitos dos mais importantes solistas de cordas portugueses, entre os quais Ana Bela Chaves, Irene Lima, Maria José Falcão e Aníbal Lima. Depois de Fernando Costa, Leonardo de Barros dirigiu a orquestra durante várias décadas, sendo esse cargo atualmente desempenhado por Alexandre Delgado.

Ficha Técnica e Artística
COROS E ORQUESTRAS DA AMAC
Coro de Iniciados, Coro Infantil e Coro Juvenil, dir. João Barros
Orquestra de Guitarras, dir. Duarte Lamas
Orquestra de Sopros, dir. Ana Van Zeller
Orquestra de Cordas Juvenil, dir. Alexandre Delgado
Orquestra de Cordas de Iniciados, dir. Daniela de Brito

Luísa Tenreiro, narração
André Silvestre, abeto jovem
Sebastião Mendia, abeto crescido
Margarida Prates, piano
Ana Van Zeller, flauta
Sofia Brito, oboé
João Pedro Santos, clarinete
Duarte Lamas, guitarra
Rui Paiva, guitarra
Cláudia Cruz, percussão
Isabel Monteiro, percussão
Sara Fernandes, percussão
Gonçalo Reis, xilofone*
Gonçalo Martins, xilofone*

Alexandre Delgado, direção musical



Teatro Tivoli, Lisboa, 4 de junho de 2017
Captação de Som: Hugo Guimarães / Antena 2
Realização do vídeo: Paulo Porfírio




O PEQUENO ABETO
Cantata para Coro, Piano e Orquestra

baseada no conto homónimo de
H. C. Andersen

Música, Adaptação do Texto e Versos de
Alexandre Delgado

a partir de uma tradução de Botelho Moniz


PRIMEIRA PARTE

1. O ABETO

CORO
Era uma vez um pequeno abeto que crescia na floresta.
Estava num belo lugar, inundado de sol e ar puro.
À sua volta tinha muitos companheiros crescidos, abetos e pinheiros.
O maior desejo do pequeno abeto era crescer.
Não lhe importava o sol quente nem o ar fresco,
nem notava as crianças dos camponeses
que corriam e brincavam à sua volta
quando iam colher morangos e framboesas.
Ao vê-lo exclamavam:
“Mas que engraçado, tão pequenino!”

NARRADORA
Mas o pequeno abeto não achava graça nenhuma!


2. A FLORESTA

CORO
No outro ano tinha crescido mais um anel
e no ano seguinte crescera mais um.
“Oh, ainda se eu fosse tão alto como os outros!”,
soluçava o pequeno abeto.
“Oh, quem me dera a mim ser grande assim também!
Então poderia estender os meus braços para o sol
e olhar para o grande mundo.
Então os pássaros vinham fazer ninho nos meus ramos
e quando o vento soprasse eu inclinar-me-ia
numa reverência, como os outros fazem.”
O pequeno abeto não sentia prazer nenhum
com a carícia do sol, nem com os pássaros,
nem com as nuvens róseas que passavam pelo céu
do amanhecer e do entardecer.


3. O INVERNO

CORO
Depois chegou o inverno
e a terra ficou coberta de neve branca e brilhante.
Às vezes passava uma lebre a correr
e saltava por cima do pequeno abeto.

NARRADORA
Isso aborrecia-o muito!

CORO
Mas depois de mais dois invernos terem passado,
o pequeno abeto já crescera tanto
que a lebre tinha que dar a volta.


4. OS LENHADORES

NARRADORA
No outono costumavam chegar os lenhadores e deitavam a baixo algumas das árvores mais altas.
O jovem abeto estremecia quando as magníficas árvores tombavam no solo, e os seus ramos eram cortados de forma que os troncos ficavam nus e irreconhecíveis. “Que irá acontecer-lhes?”,
pensava o abeto. “Para onde vão?”


5. AS ANDORINHAS E A CEGONHA

CORO
Na primavera, quando chegavam as andorinhas
e as cegonhas,
o abeto perguntava-lhes:

RAPAZ
Sabem para onde foram levadas?

CORO
As andorinhas não sabiam,
mas uma cegonha, pensativa, respondeu-lhe:
“Creio que sei.
Vi muitos navios com esplêndidos mastros,
quando voei do Egito.
Calculo que os mastros deviam ser
as árvores que dizes.
Cheiravam a abeto.
Ah! eram grandes, enormes!”

RAPAZ
Ah, quem me dera já ser grande
para viajar nos barcos!
Como é o mar? Com que é que se parece?

CORO
“Levaria muito tempo a contar-te isso tudo.”

NARRADORA
Respondeu a cegonha, e afastou-se.
“Alegra-te com a tua juventude”,
disseram-lhe os raios de sol,
e o vento beijou-o, o orvalho chorou sobre ele,
pois o abeto não entendia.


6. OS PARDAIS

CORO
Ao chegar a época do Natal
muitas das árvores mais pequenas foram cortadas,
algumas delas não tão crescidas como o jovem abeto.
Agora ele não tinha paz nem descanso,
desejando partir também.
Essas árvores eram escolhidas pela sua beleza,
não lhes cortavam ramo nenhum.
Eram colocadas em carros
e puxadas pelos cavalos.
“Para onde as levam? Para onde as levam?
Porque não lhes cortam os ramos?
Para onde as levam? Para onde as levam?”

CORO INFANTIL
“Nós sabemos, nós sabemos!”,
pipilaram os pardais.
“Lá em baixo, na cidade,
fomos ver pelas janelas
e sabemos para onde elas vão.
Ficam lindas, enfeitadas,
é uma coisa de encantar!
Tão bonitas e vistosas
que nem podes imaginar.
Ao espreitar pelas janelas
vimo-las decoradas
com doces e velas,
todas iluminadas.”

TODOS
“Ficam lindas, enfeitadas,
é uma coisa de encantar!
Tão bonitas e vistosas
que nem podes imaginar.
Ao espreitar pelas janelas
vimo-las decoradas
com doces e velas,
todas iluminadas.
Ficam no centro das salas
e toda a noite a brilhar.”

RAPAZ
E depois?

CORO
Perguntou o jovem abeto.

RAPAZ
Que acontece depois?

CORO INFANTIL
“Oh! Não vimos mais nada além disso.
Mas era simplesmente maravilhoso.”

RAPAZ
Também eu estarei destinado
a um futuro tão brilhante?

NARRADORA
“Alegre-ta connosco”, disseram o ar e o sol.
“Alegra-te com a tua juventude!”

CORO
Mas o abeto não lhes prestou atenção.
Limitou-se a crescer, a crescer.

NARRADORA
No inverno seguinte, ele foi o primeiro a ser cortado.


7. A PARTIDA

NARRADORA
O machado penetrou fundo no cerne e a árvore tombou no chão com um suspiro.
Sentiu-se ferida e a desfalecer. Não conseguia pensar na felicidade, sentia-se triste por abandonar o lugar onde tinha nascido. Sabia, também, que não voltaria a ver os seus companheiros queridos, ou as moitas e as flores, talvez nem mesmo os pássaros. Tudo somado, a partida não era nada agradável.


SEGUNDA PARTE

8. A CIDADE

CORO
Quando a árvore voltou a si
viu-se num pátio ao lado de outras
e um homem dizia:
“Este é perfeito, vamos levá-lo.”
Depois vieram dois lacaios
que pegaram nele e o levaram
para uma grande e bela sala.
As paredes tinham quadros pendurados
e ao lado do fogão holandês
estavam grandes vasos da China
com leões pintados.
Também havia muitos cadeirões
e sofás cobertos de seda,
e grandes mesas com grandes livros de gravuras,
e brinquedos que valiam muito dinheiro.
E o nosso abeto foi colocado no centro da sala,
dentro dum vaso com areia.

NARRADORA
Como a árvore tremia! Que iria acontecer agora?


9. A ÁRVORE DE NATAL

CORO INFANTIL
Jovens criados e criadas
começaram a decorá-la.
Nos seus ramos penduraram
muitos saquinhos de papel brilhante
com bombons.
Nozes douradas e maçãs
como se crescessem na árvore
e mais de cem velas
brancas e vermelhas
foram presas entre os ramos,
para acender depois.
Bonecas que pareciam seres humanos
foram penduradas entre os ramos
e no cimo foi presa
uma estrela dourada de ouropel.

TODOS
Jovens criados e criadas
começaram a decorá-la.
Nos seus ramos penduraram
muitos saquinhos de papel brilhante
com bombons.
Nozes douradas e maçãs
como se crescessem na árvore
e mais de cem velas
brancas e vermelhas
foram presas entre os ramos,
para acender depois.
Bonecas que pareciam seres humanos
foram penduradas entre os ramos
e no cimo foi presa uma estrela
dourada de ouropel.
E todos diziam:
“Esta noite, esta noite, esta noite
será iluminada!”

NARRADORA
“Ah, ainda se fosse noite! Se as velas fossem acesas já!
Que acontecerá então? Será que as árvores da floresta me virão visitar,
ou que os pardais virão espreitar às janelas?
Vou passar a ficar aqui durante o verão e o inverno?”

CORO
Tudo isto pensava a árvore
cuja alma doía de tanta impaciência;
e a dor d’alma das árvores é tão má
como a dor de cabeça nos seres humanos.


10. A NOITE DE NATAL

NARRADORA
Finalmente as velas foram acesas. Que esplendor refulgente! A árvore estremeceu tanto, em todos os seus ramos, que uma das velas pegou fogo à verdura. “Cuidado!”, exclamou uma das raparigas; E apagaram essa vela. Agora, o abeto nem se atrevia a estremecer. Era, de facto, terrível! Tinha receio de perder um dos seus ornamentos, e sentia-se atormentado pelo seu brilho. Depois as portas de batente foram abertas, e entrou um grupo de crianças, tão excitadas que parecia que iam deitar abaixo toda a árvore. Enquanto isso, as pessoas adultas seguiam-nas mais calmamente. Por uns momentos, as crianças ficaram perfeitamente sossegadas, mas logo começaram a gritar e a dançar à volta da árvore, e a retirar as suas prendas.
As velas consumiam-se sobre os ramos, e foram apagadas uma a uma. Então foi dada licença às crianças para saquearem as guloseimas da árvore.


11. O ANÃOZINHO RABUGENTO

CORO
Uma história! Uma história! Uma história!

NARRADORA
Gritaram as crianças, e arrastaram um homem gorducho para junto da árvore. Ele sentou-se debaixo dela, dizendo: “Aqui estamos nós no bosque, e a árvore gostará muito de ouvir. Mas vou contar só uma história, qual há de ser? A do pintainho anãozinho, ou a do anãozinho rabugento?

CORO
O pintainho anãozinho!
O anãozinho rabugento!

NARRADORA
Houve uma confusão total. Só o abeto ficou silencioso, pensando: “entrarei também na história?”
Mas o abeto já fazia parte da história.

CORO
E o homem contou-lhes a história
do anãozinho rabugento
que caíu das escadas.

NARRADORA
“...e no entanto conquistou grandes honras e acabou por casar com uma princesa.”

CORO
Outra! Outra! Outra!

NARRADORA
Queriam mais histórias, mas tiveram de se contentar com aquela.
O abeto permaneceu atónito e pensativo. Os pássaros na floresta nunca lhe tinham contado uma história assim. “O anãozinho rabugento caíu das escadas e no entanto acabou por casar com uma princesa. Bem, quem sabe?” — meditou ele — “talvez eu também caia da escada abaixo e case com uma princesa.” E sentiu-se mais satisfeito, pensando que no dia seguinte seria de novo revestido de velas e brinquedos. “Amanhã brilharei novamente com todo o esplendor.” E a árvore ficou pensativa durante toda a noite.


12. NO SÓTÃO

NARRADORA
Na manhã seguinte, entraram os criados. “Agora vai começar outra vez a decoração”, pensou o abeto. Mas eles pegaram na árvore, levaram-na da sala, subiram com ela as escadas e colocaram-na no sótão. Deixaram-na num canto escuro, onde não entrava nem um bocadinho de luz. O abeto encostou-se à parede e pensou e pensou. Teve bastante tempo para isso, pois dias e noites passaram, sem que ninguém aparecesse. “Agora é inverno lá fora. A terra está rija e coberta de neve. É por isso que fico aqui, até chegar a primavera. Como eles pensam em tudo! Só preferia que isto aqui não fosse tão terrivelmente escuro e solitário. Era tão bom na floresta, quando a lebre passava por mim a correr. Sim, mesmo quando me saltava por cim, embora na altura eu não gostasse disso. A solidão aqui é insuportável.”


13. OS RATINHOS

NARRADORA
Surgiu nesse momento um pequeno rato, logo seguido por outro. Cheiraram o abeto e passearam sobre os ramos.

CORO
“Está muito, muito frio”,
disse então um ratinho.
“Está muito, muito frio”,
disse o outro também.
“E sabe muito bem
estar aqui, não achas,
ó velho abeto?”

RAPAZ
Não sou tão velho assim.

CORO
“Donde foi que vieste?”,
perguntaram os ratinhos,
“e que é que tu viste?”
Eles eram extremamente curiosos.
“Fala-nos do sítio mais belo do mundo.
Foi de lá que tu vieste, não foi?
Não estiveste na despensa,
não foste lá?
onde há queijos empilhados
e presuntos pendurados?
onde se dança sobre as velas?
onde se entra magrinho
e se fica gordo?”

RAPAZ
Não sei nada disso.
Mas conheço a floresta,
onde o sol brilha
e os pássaros cantam.

NARRADORA
E em seguida falou-lhes da sua juventude, e os ratinhos nunca tinham ouvido contar coisas como as que ele lhes contou.

CORO
“Oh, quantas coisas tu viste!
Deves ter sido tão feliz!”

RAPAZ
Eu?

NARRADORA
O abeto pensou no assunto.

RAPAZ
Sim, pensando bem,
foram tempos felizes.

NARRADORA
Mas continuou a contar-lhes tudo sobre a noite de Natal, quando tinha sido enfeitado com doces e velas.

CORO
“Como tens sido feliz,
velho abeto!”

RAPAZ
´”Não sou tão velho assim.”

NARRADORA
“E como sabes contar histórias”, disseram os ratinhos.
Na noite seguinte voltaram com outros quatro ratos, que queriam ouvir as histórias da árvore, e ele contou a do anãozinho rabugento. Lembrava-se de cada uma das palavras, e os ratinhos, de pura alegria, saltaram até ao mais alto dos ramos!
Na outra noite vieram mais ratos e, no domingo, até duas ratazanas. Mas estas não se interessaram pela história, o que perturbou os ratinhos, pois agora eles também já não a apreciavam.

CORO
“É essa a única história que conheces?”,
perguntaram as ratazanas.

RAPAZ
A única. Ouvi-a na noite mais feliz da minha vida.
Mas não entendi então a que ponto era feliz.

CORO
“É uma história muito maçuda.
Não conheces mais nenhuma?
uma que fale de presuntos?
ou de velas?
Uma história passada na despensa?”

RAPAZ
Não.

CORO
“Então, obrigado!”

NARRADORA
Disseram as ratazanas, e foram-se embora. Por fim, também os ratinhos se foram retirando.


14. FINAL

NARRADORA
Sozinho de novo, o abeto murmurou, suspirando: “Era realmente muito agradável quando os ratinhos se sentavam à minha volta, a escutar as histórias que eu contava. Mas agora acabou. Talvez eu deva pensar no dia em que me levarem daqui.” Mas quando chegaria esse dia?
Bem, aconteceu uma manhã, quando os criados vieram arrumar o sótão. A árvore foi levada dali e arrastada escada abaixo, até onde havia novamente luz do dia. “Ah, a vida recomeça!”, pensou ele. Sentiu o ar fresco, os primeiros raios de sol, e estava lá fora, num pátio que dava para um jardim cheio de flores. As rosas eram belas e perfumadas, e as andorinhas voavam em torno, exclamando:

CORO
“Piu-piu, o meu amor voltou, por fim!
Piu-piu, o meu amor voltou p’ra mim!”

NARRADORA
Mas não era ao abeto que se referiam. “Agora vou mesmo viver!”, fantasiou a árvore, estendendo os ramos a toda a largura.
Ah, mas os seus ramos estavam secos, fanados e amarelos, e a árvore tinha sido deitada a um canto, entre ervas daninhas e urtigas.
A estrela dourada continuava presa no topo e brilhava ao sol radiante. Algumas das alegres crianças que tinham dançado em torno da árvore pelo Natal, brincavam agora no pátio. Uma das crianças aproximou-se e arrancou a estrela dourada.
“Olhem só o que resta daquele velho e feio abeto!”, gritou o rapaz, saltando sobre os ramos, que lhe estalaram debaixo dos pés. Num pranto, a árvore contemplou toda a beleza e esplendor das flores do jardim, e depois olhou para si mesma, e desejou que a tivessem deixado ficar naquele canto escuro do sótão. Pensou na sua juventude fresca e verdejante na floresta, na feliz noite de Natal e nos ratinhos que ouviam, tão contentes, a história do anãozinho rabugento.
“É tarde, muito tarde!”, soluçou a pobre árvore. “Ainda se eu pudesse ter apreciado tudo quando podia! Agora tudo passou, e já não volta.”
E um criado veio e cortou a árvore em pequenos pedaços; arranjou um monte deles. Acendeu uma bela fogueira e os bocados da árvore arderam debaixo de uma grande panela de cobre. A árvore suspirou profundamente e cada suspiro parecia um tiro de pistola. As crianças correram e sentaram-se em frente do fogo, olhando-o com exclamações de alegria. Mas por cada estalido, que na realidade era um suspiro, a árvore pensava num dia de verão na floresta, ou numa noite de inverno cheia de estrelas, ou na noite de Natal e no anãozinho rabugento, única história que tinha ouvido contar. E em breve, da árvore não restava senão um monte de cinzas.
As crianças continuaram a brincar no jardim, e a mais nova tinha colocado no peito a estrela dourada que a árvore usara no dia mais feliz da sua vida.

CORO

Eis a história do abeto,
dum abeto como nós;
foi contada há muito tempo,
é do tempo dos bisavós.

É uma história sobre a vida
de quem não dá valor
a todas as coisas
que tem em seu redor.

Neste mundo cada dia
tem beleza p’ra nos dar
e motivos de alegria,
basta apenas saber olhar.

O abeto despediu-se
sem gozar o presente;
mas com o seu conto,
ele vive p’ra sempre.


FIM