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Zohra - Uma partitura para a Liberdade | Orquestra feminina do Afeganistão

Reportagem

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Zohra - Uma partitura para a Liberdade | Orquestra feminina do Afeganistão Zohra - Uma partitura para a Liberdade | Orquestra feminina do Afeganistão

Orquestra Zohra, no Concerto do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, durante o Festival Jovens Músicos © Jorge Carmona / Antena 2 RTP

Imagina uma nação sem música durante dias, anos, décadas? Esta é a música que mudou vidas, mas que ao mesmo tempo põe em risco essas mesmas vidas.
Os elementos da Orquestra Zohra são as primeiras raparigas a estudar música num período que ultrapassa três décadas. Oriundas de províncias de todo o Afeganistão, vivem em Cabul onde frequentam o Instituto Nacional de Música do Afeganistão, fundado e dirigido pelo musicólogo Dr. Ahmad Sarmast. Esta orquestra, com direção artística de Lauren Braithwaite, é regida pela primeira maestrina do país, Negin Khpalwak.


Zohra - Uma partitura para a Liberdade 
A Orquestra feminina do Afeganistão em Lisboa

Uma reportagem (em duas partes )
de Isabel Meira (áudio)
e de Jorge Carmona (fotografias)





Parte 1

São as primeiras raparigas a estudar música no Afeganistão, num período que ultrapassa as três décadas. 
Juntas formam a Orquestra Zohra, a primeira e única orquestra feminina do país e querem lutar pelos direitos das mulheres. 
Durante quatro dias, a orquestra esteve em Lisboa, a convite do Festival Jovens Músicos. 
Além dos concertos no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, as jovens afegãs passearam por Lisboa e descobriram um pouco da história de Portugal. 




Parte 2

A guerra civil e o radicalismo islâmico silenciaram o Afeganistão, forçando o exílio de muitos músicos e condenando milhares de crianças ao trabalho forçado nas ruas.
As raparigas, proibidas de ir à escola durante o regime taliban, representam ainda mais de metade das crianças e jovens que não têm acesso à educação.
Um musicólogo quis mudar a realidade e criou em 2010 aquela que se mantém como a única escola de música do país, onde centenas de crianças desfavorecidas têm um ensino integrado e podem preparar-se para a universidade.
Foi lá que nasceu a Orquestra Zohra, a primeira orquestra feminina do Afeganistão, dirigida pela primeira maestrina da história do país.
Durante quatro dias, a orquestra esteve em Lisboa, a convite do Festival Jovens Músicos.
 





O Afeganistão assistiu a mais de três décadas de guerra provocadas por tumultos políticos e extremismo religioso, resultando em pobreza generalizada e uma sociedade injusta em muitas frentes, particularmente em relação a mulheres e jovens raparigas. Antes da guerra, as mulheres compartilhavam oportunidades iguais com homens na educação e na força de trabalho, e contribuíam enormemente para o tecido cultural da nação. No entanto, nas últimas décadas, foram as mulheres do Afeganistão que tradicionalmente sofreram as mais severas pressões de desigualdade, sofrimento e injustiça. Mesmo hoje, toda uma geração de mulheres continua a enfrentar muitos desafios que são agravados pela opressão, discriminação e falta de oportunidades. No entanto, na única escola de música do Afeganistão, mais de setenta e cinco jovens raparigas com idades entre os oito e vinte anos lutam pelo acesso à educação e pela possibilidade de fazerem música em conjunto. Os elementos da orquestra Zohra são as primeiras raparigas entre as suas famílias, comunidades e país, a estudar música num período que ultrapassa três décadas.
Oriundas de províncias de todo o Afeganistão, vivem em Cabul onde frequentam o Instituto Nacional de Música do Afeganistão (ANIM), fundado e dirigido pelo musicólogo Dr. Ahmad Sarmast.

Um instrumento de esperança para muitos, o ANIM oferece educação musical e geral a centenas de crianças afegãs, independentemente de seu género, etnia, filiação religiosa ou circunstâncias socioeconómicas. Neste contexto interdisciplinar - uma raridade no Afeganistão - um dos principais compromissos do ANIM é formar raparigas através da música. Desde a sua inauguração em 2010, a matrícula de alunos do sexo feminino subiu para um terço do corpo discente, tornando-se parte integrante e importante da estrutura académica e social da escola.

No início de 2015, foi criado o grupo feminino Zohra. Inicialmente um pequeno grupo de câmara de quatro raparigas, logo se transformou no que hoje é uma orquestra de vinte e cinco elementos, composta de instrumentos ocidentais clássicos e tradicionais afegãos. Hoje, a Orquestra Zohra inclui uma mistura harmoniosa de instrumentos ocidentais de cordas, instrumentos de sopro, piano e percussão, e instrumentos indo-afegãos como o rubab, dutar, tambour, sitar, tabla e qashqarcha, um instrumento tocado principalmente no nordeste do Afeganistão.

Com o alargamento do conjunto cresceu, também, a necessidade de um maestro, e a pianista Negin Khpolwak subiu ao pódio. Como primeira maestrina na história do Afeganistão, Negin tornou-se um exemplo para outras alunas do ANIM se envolverem em mais áreas performativas, regência e composição. A sua liderança também captou a atenção nacional e internacional, estimulando o apoio ao papel de uma jovem mulher na sociedade afegã atual.

No início de 2017, após dois anos de trabalho dedicado, a Orquestra Zohra embarcou na sua primeira digressão internacional; atuando em quatro cidades entre a Alemanha e a Suíça, com destaque para a cerimónia de encerramento do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça. Mais tarde, em 2017, a orquestra apresentou-se no Hindustan Times Leadership Summit, o maior encontro de líderes políticos, financeiros e culturais da Índia e resto do mundo.

Como resultado do seu trabalho árduo, a Orquestra Zohra recebeu reconhecimento local e internacional através de inúmeras distinções, incluindo o Prémio Freemuse 2017; prémio Sucesso para Mulheres do Afeganistão do Institute for Peace, Media, and Good Governance; e o Prémio Montluc Resistência e Liberdade de 2018. O Instituto Nacional de Música do Afeganistão é ainda reconhecido pela Hundr(ED) Global como uma das 100 melhores instituições educacionais inovadoras, e em 2018, o ANIM e o Dr. Sarmast foram distinguidos com o Prémio Polar de Música, muitas vezes referido como o 'Prémio Nobel para Música'.

A Orquestra Zohra agradece as oportunidades de compartilhar a sua história inspiradora com músicos e plateias de todo o mundo. Apesar dos desafios diários inerentes ao facto de serem raparigas jovens músicos no Afeganistão, a sua perspectiva coletiva e positiva em relação ao futuro fortalece a sua determinação à medida que continuam a ser dedicadas embaixadoras da paz e a apresentar uma imagem positiva do Afeganistão ao resto do mundo.

[Texto de Luís Tinoco, diretor do Prémio Jovens Músicos]



Para Março próximo, estão agendados concertos da Orquestra Zohra, em várias cidades da Suécia e do Reino Unido.