#OscarNotSoWhite
Frankie Faison em "Não Dês Bronca" (1989): negros e brancos encenados por Spike Lee

Hollywood  

#OscarNotSoWhite

Como evoluiu a polémica que, o ano passado, marcou as nomeações dos Oscars? Qual a presença dos afro-americanos nas listas da Academia? E como podemos pensar tais questões sem esquecer as memórias da própria produção de Hollywood?

Que é feito da polémica dos Oscars do ano passado que ficou assinalada pela proliferação do rótulo #OscarSoWhite? Pois bem, o número de nomeações para afro-americanos (em particular nas categorias de representação) aumentou de modo significativo e, num efeito típico do mundo de polegares (para cima ou para baixo...) em que vivemos, assistimos à socialização do seu contrário: #OscarNotSoWhite.

Em boa verdade, está em jogo algo mais do que uma mera contabilidade de quotas (a não ser que defendamos a ideia de que a representatividade de qualquer grupo, nomeadamente os profissionais afro-americanos, se pode reduzir a uma banal aritmética). Acontece que, independentemente das nuances mais ou menos interessantes da citada polémica, o que está em jogo é a defesa da diversidade interna da Academia de Hollywood — de acordo com um processo necessariamente complexo e moroso, tal como foi reconhecido há cerca de um ano pela sua presidente, Cheryl Boone Isaacs.


Este ano assistimos a um estreitamento mediático de muitas discussões em torno dos Oscars cujo resultado prático mais visível é um conflito "pró/contra" em torno do filme mais nomeado ("La La Land", so white...), conflito que nem sequer favorece uma reflexão historicamente informada sobre o imenso património clássico do musical. Ironicamente, uma das propostas temática e formalmente mais ousadas ("Moonlight", not white...) envolve uma relação visceral com os temas afro-americanos, não estando a ser acompanhada por muitas abordagens que enfrentem a sua complexa rede simbólica (afro-americana, urbana e sub-urbana, sexual).

Isto sem esquecer que esta é a semana em que chega às salas o filme "Elementos Secretos", sobre as mulheres afro-americanas que deram um contributo decisivo aos cálculos matemáticos das missões da NASA no começo da década de 60. Outra referência importante será "Vedações" (ainda não mostrado à imprensa portuguesa, com estreia agendada para 23 de Fevereiro), interpretado e dirigido por Denzel Washington.

Washington parece, aliás, emergir como símbolo importante neste processo, uma vez que a sua notável carreira já lhe trouxe dois Oscars: para melhor actor secundário em "Tempo de Glória" (Edward Zwick, 1989) e melhor actor em "Dia de Treino" (Antoine Fuqua, 2001). "Vedações" tem quatro nomeações: filme, actor (Washington), actriz secundária (Viola Davis) e argumento adaptado (August Wilson, nomeação póstuma). Além do mais, os dois intérpretes já foram distinguidos pelo sindicato dos actores, Screen Actors Guild.

Mais do que nunca, face a uma América que vive em dolorosa crispação as suas mais recentes convulsões políticas, importa não reduzir todas estas questões a um "fenómeno" gerado por factos que aconteceram há meia dúzia de semanas ou há cerca de um ano... A história do cinema americano é mais longa e menos maniqueísta. A esse propósito, talvez seja pedagógico lembrar uma ideia básica. A saber: "a diversidade não é apenas uma questão a preto e branco" ["USA Today"].

E lembrar também que a figuração dos afro-americanos não pode ser desligada da história mais geral da sociedade americana nem, por isso mesmo, das convulsões internas de Hollywood. Eis apenas três exemplos dessas convulsões:


* CARMEN JONES (1954) — Adaptando um sucesso musical da Broadway, construído a partir da ópera "Carmen", de Georges Bizet, o produtor e realizador Otto Preminger apostava numa notável excepção artística e simbólica: o elenco do filme, liderado por Dorothy Dandridge e Harry Belafonte, é constituído unicamente por actores/cantores afro-americanos.


* ADIVINHA QUEM VEM JANTAR? (1967) — Um melodrama familiar dirigido por Stanley Kramer, centrado num jantar em que uma jovem branca (Katharine Houghton) apresenta o seu noivo negro (Sidney Poitier) aos pais (Spencer Tracy/Katharine Hepburn) — recorde-se que Poitier (que celebra 90 anos no dia 20 de Fevereiro) foi o primeiro actor afro-americano a receber um Oscar de melhor actor, por "Os Lírios do Campo" (Ralph Nelson, 1963).


* NÃO DÊS BRONCA (1989) — "Do the Right Thing" no original, é um dos exemplos mais radicais, e também mais elaborados, da capacidade de Spike Lee (realizador, argumentista, intérprete) expor as contradições internas da comunidade de brancos e negros na zona de Bedford-Stuyvesant, Brooklyn — o filme teve duas nomeações, para Danny Aiello (melhor actor secundário) e Spike Lee (melhor argumento original).

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publicado 20:31 - 03 fevereiro '17

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