25 de abril: apogeu e queda da pornografia
Linda Lovelace em "Garganta Funda": um clássico do cinema pornográfico exibido após o 25 de abril

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25 de abril: apogeu e queda da pornografia

Após o 25 de abril de 1974, diversificou-se a oferta de filmes "para maiores de 18 anos". A exibição regular de filmes eróticos e pornográficos também marcou os debates da época.

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Cinemateca assinala 25 de abril Assinalando os 40 anos da revolução, a Cinemateca mostra filmes que documentaram os acontecimentos históricos ocorridos 1974.

A abolição da censura após o 25 de Abril trouxe uma novidade excitante para os portugueses, o erotismo e a pornografia e em Lisboa formavam-se filas para assistir a filmes do género, algo impensável 40 anos depois.

Galgando os quartéis a revolução chegou rapidamente às pessoas e aos seus hábitos. Menos de um mês depois do golpe (maio de 1974) a Comissão de Cultura e Espetáculos da Junta de Salvação Nacional anunciava uma nova classificação para espetáculos, ainda que interditando os filmes pornográficos.

Muito se debateria nesse ano, e no seguinte, tudo que se relacionasse com o corpo e o sexo, um tema tabu durante o Estado Novo. Nas revistas e jornais apareciam pela primeira vez mulheres em biquíni em anúncios para produtos tão diferentes como ventoinhas, carros, viagens ou velas para motores. Nos quiosques vendiam-se revistas pornográficas e os cinemas ostentavam grandes e sugestivos cartazes.

"Emanuelle", "A Grande Farra" ou "O Último Tango em Paris" pontificavam, como outros cujos títulos tudo diziam, "Garganta Funda", "Caminhos do Prazer" ou "O Colchão em Delírio". Difícil era encontrar um espetáculo que não fosse para maiores de 18 anos.

Para Júlio Machado Vaz, médico e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, essa apetência por tudo relacionado com o sexo que trouxe o 25 de Abril é natural: "fez parte de uma gigantesca bebedeira de liberdade", foi "tudo perfeitamente normal".

Em 1974 discutia-se na imprensa se era de facto normal. Em outubro desse ano o semanário Expresso lançava um debate sobre o assunto. É que se por um lado poder ver-se tudo era "um passo em frente", por outro era "atentatório à liberdade de escolha" por "não se poder decidir não ver maus filmes eróticos, ou seja, filmes pornográficos".

Proibir a pornografia? "Se há coisa que viva da própria proibição é a pornografia", dizia na altura o poeta e pintor Mário Cesariny, no mesmo jornal onde um leitor perguntava: "O senhor acha bem mostrar nos espetáculos toda a casta de poucas vergonhas, que se praticam por esse mundo fora (por exemplo: o deboche e todas as porcarias, incluindo até as pessoas invertidas)".

"Em termos de sexualidade houve (no 25 de Abril) um boom de experimentação, houve histórias de experimentar sexo em grupo", diz Júlio Machado Vaz que entende o "fenómeno social" decorrente da "explosão de liberdade".

Natália Correia, poeta e deputada, defendia em 1974 (Expresso, 19 de outubro) o erotismo e dizia que a "expansão fulminante" da pornografia se deveu ao "longo pesadelo de proibições" ao qual é natural que se siga "a euforia de poder-se consumir aquilo que as interdições tanto prestigiaram". E que proteste, dizia, quem acha demasiado.

A ressaca do desvario libertário
Com bilhetes a 25 escudos (cerca de 12 cêntimos) e cinemas sempre cheios o excesso de sexo recuou ainda antes do fim do ano de 1974. Pressionados pelo Ministério da Comunicação Social os distribuidores aceitaram reduzir a 25% a percentagem de filmes "sexy". Nos jornais e nas fachadas dos cinemas amainou também o erotismo.

António Pedro Vasconcelos, cineasta, dizia criticamente na altura que era o cinema que perdia, porque com a decisão "levaram por tabela" bons filmes. Temia que "o mundo irreprimível do sexo e dos instintos" passasse de novo para a clandestinidade.

A solução, dizia Natália Correia, era a banalização. "A sua excessiva e enfadonha vulgarização só poderá concorrer para deteriorar o interesse que ela hoje suscita", acrescentando: "Querem pornografia? Fartem-se. Se se morre de fome também se morre de fartura".

Tinha razão a Natália. Em Lisboa, 40 anos depois, as "catedrais" do filme pornográfico desapareceram há muito. O "Olympia", na Rua dos Condes, está vedado e ouvem-se barulhos de obras, o "Capitólio", no Parque Mayer, onde muitos portugueses viram o "Garganta Funda", fechou na década de 80.

Só o "Animatógrafo", no Rossio, sobrevive no ramo, anunciado um "Peep Show" por detrás de cortinas vermelhas para adultos. Sem cartazes e sem fulgor há uma sala que persiste em passar filmes com títulos sugestivos como "Maduras com Leitinho".

Passaram-se 40 anos, passaram as excursões de espanhóis a Portugal para verem os filmes "da moda", passaram os clubes de vídeo "ricamente abastecidos" de pornografia, lembra Júlio Machado Vaz. E a internet levou a pornografia para dentro de casa, lembra, citando casais que reconhecem que a veem em conjunto.

"O tipo de estímulos mudou muito, nos reality shows há sexo ao vivo. Houve uma saturação e busca de estímulos", diz.

Mas há coisas que não mudaram desde 1974. "A exposição total mata o imaginário", chama mais a atenção um corpo com alguma roupa num bar da praia do que um sem nada deitado na areia. Terá razão Júlio Machado Vaz.

E já a teria no século XIX o filósofo Friedrich Nietzsche, citado por António Pedro Vasconcelos em 1974 a propósito do perigo de racionar a pornografia "com as luvas da moral". "O cristianismo envenenou Eros. Mas este nem mesmo assim morreu, tornou-se simplesmente vicioso".

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