5 filmes de Vila do Conde
"Cut": o corpo como ferida, ou como fazer cinema a partir de imagens de... cinema

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5 filmes de Vila do Conde

O 21º festival de curtas-metragens de Vila do Conde mantém-se fiel ao seu próprio património: trata-se de dar a ver uma notável diversidade de experiências, desde o realismo mais estrito às mais elaboradas experimentações — eis uma sugestão de um possível "Top 5".

Documentário ou ficção? Digamos que há documentos que passam pela ficção e ficções capazes de integrar o mais estrito gosto realista... Classicismo e experimentalismo? Enfim, a energia dos clássicos está longe de ter desaparecido e há, por vezes, experiências "vanguardistas" que são produto do mais acomodado reaccionarismo estético e narrativo...

Daí as renovadas virtudes de um festival como o CURTAS Vila do Conde. Ajuda-nos a repensar ideias feitas e, acima de tudo, liberta-nos da ilusão de que o cinema contemporâneo deva ser visto em função dos padrões mais mediáticos ou de qualquer moda mais ou menos "geracional". Aqui ficam, então, alguns breves apontamentos sobre aqueles que me parecerem os melhores cinco filmes que pude ver entre os títulos da competição internacional:

JUMP, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov (Bulgária). Ou como transformar um fait divers — um homem com impulsos suicidas que toma conta do apartamento de um primo rico — num delicioso exercício de realismo social tocado por um discreto desencanto romântico. Tudo atravessado por um humor desconcertante, à beira do (teatro do) absurdo, em que o contributo dos actores é decisivo.

BUENOS DIAS RESISTENCIA, de Adrián Orr (Espanha). Como filmar três crianças a serem angustiadamente acordadas pelo pai (que tenta que cheguem a horas à escola)? Pois bem, sabendo observá-las, em vez de as tratar como estereótipos mais ou menos caricatos. A paciente câmara de Orr consegue, acima de tudo, respeitar o tempo dos gestos e das acções, sendo o seu filme um caso exemplar de ética realista.

TOKYO GIANTS, de Nicolas Provost (Bélgica). A notável obra de Provost tem sido presença regular em Vila do Conde. Ele é um performer que trabalha a assincronia imagem/som, não como um acidente, mas como um dado natural do cinema. Daí a criação de tecidos de realidade e pesadelo a partir de cenas colhidas nos espaços das grandes metrópoles — Tóquio conclui uma trilogia iniciada com Nova Iorque ("Plot Point", 2007) e Las Vegas ("Stardust", 2010).

CUT, de Christoph Girardet e Matthias Müller (Alemanha). O tema: o corpo como "ferida que nunca cicatriza". Uma espantosa colagem de planos e/ou cenas de filmes, não exactamente de terror, mas em que a manipulação, ou melhor, a reconversão iconográfica do corpo é matéria essencial (Cronenberg, Resnais, etc.): um caso modelar de um cinema que pensa o cinema e os seus poderes figurativos.

WALKING THE DOGS, de Jeremy Brock (Reino Unido). A inspiração vem de um facto verídico, ocorrido em 1982: um homem, iludindo a vigilância do Palácio de Buckingham, penetrou nos aposentos da Rainha Isabel II. Com Emma Thompson (genial!) no papel da Rainha e Eddie Marsan como o intruso (num registo de tocante humanidade), eis uma expressão notável de um know how de escrita eminentemente britânico. E também um caso exemplar de um cinema que continua a valorizar o poder da palavra.

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publicado 02:08 - 13 julho '13

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