Michael Caine e Harvey Keitel filmados por Sorrentino — envelhecer ou não envelhecer...


joao lopes
13 Dez 2015 0:45

Será que existe um cinema italiano realmente digno da imensa herança que vem do seu património, em particular do trabalho de nomes emblemáticos como Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, mas também Luigi Comencini, Mario Monicelli ou Ettore Scola?

A resposta parece ser claramente afirmativa, mesmo se é verdade que convém evitar alguns paralelismos automáticos, e mais ou menos simplistas. Paolo Sorrentino, por exemplo, consagrado em 2014 com o Oscar de melhor filme estrangeiro para o seu "A Grande Beleza" — um discípulo de Fellini, como então se disse?
Em boa verdade, o novo filme de Sorretino, "A Juventude" (apresentado na competição de Cannes/2015) mostra o simplismo da sua eventual colagem a uma inspiração obrigatória, "felliniana" ou não. Este é um filme liberto de qualquer dependência esquemática (desde logo, em relação a "A Grande Beleza"), procurando observar um processo que o título sugere de forma bizarra e paradoxal. A saber: o envelhecimento.
Esta é, de facto, a saga intimista de duas personagens envelhecidas, um maestro retirado e um cineasta que procura ainda montar um novo projecto (Michael Caine e Harvey Keitel, respectivamente). No cenário paradisíaco de uma estância dos Alpes suíços, a sua demanda de uma "nova" juventude envolve, afinal, um insólito desafio ao silêncio obstinado da morte.
Acima de tudo, Sorrentino é um cineasta que, ao interessar-se pelas personagens, se interessa também pelo trabalho específico dos actores. Sem dúvida por isso, uma vez mais, a riqueza emocional das interpretações continua a ser um trunfo decisivo no interior da sua visão do mundo.
Para além de Caine e Keitel, importa destacar a presença breve, mas fulgurante, de Jane Fonda, no papel de uma actriz veterana que não abdica da sua condição de estrela. Curiosamente, a sua imagem nem sequer fazia parte das promoções do filme (nomeadamente em Cannes). O certo é que, aliás confirmando algumas previsões de especialistas americanos, ela parece poder estar na corrida para o Oscar de melhor actriz secundária — para já, registe-se que, nessa mesma categoria, foi nomeada nos Globos de Ouro.

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