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A aventura portuguesa de Dominique Pinon

Edgar Pêra volta a inspirar-se num conto de Branquinho da Fonseca: "Caminhos Magnétykos" é uma aventura portuguesa, fantasmática e desencantada, tendo como protagonista o francês Dominique Pinon.

A aventura portuguesa de Dominique Pinon
Dominique Pinon: do universo de Jean-Pierre Jeunet ao cinema de Edgar Pêra
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 A aventura portuguesa de Dominique Pinon
Caminhos Magnétykos Raymond Vachs (Dominique Pinon), 60 e poucos anos, parisiense, veio para Portugal com o 25 Abril, apaixonou-se e ficou por Lisboa, onde reside há 40 anos. "Caminhos Magnétykos" desenrola-se no dia do casamento de Catarina, a sua filha de 21 anos, com Damião, um homem rico. Raymond martiriza-se por se ter calado e consentido o casamento, achando que era preferível a segurança financeira à ...

O actor francês Dominique Pinon é uma figura emblemática da filmografia de Jean-Pierre Jeunet — encontramo-lo desde o assombramento cómico de "Delicatessen" (1991) até à fantasia poética de "O Fabuloso Destino de Amélie" (2001). Edgar Pêra escolheu-o para figura central de "Caminhos Magnétykos", uma recriação surreal do conto de Branquinho de Fonseca (autor que, aliás, o cineasta já adaptara em "O Barão", datado de 2011).

A estranheza que Pinon introduz no filme é essencial: Pêra transforma o homem que repensa toda a sua existência no dia do casamento da filha, não apenas numa personagem em ruptura com o seu espaço familiar, mas também num estrangeiro que não se reconhece no país que visita. Mais do que isso: esse país (Portugal, quand même) existe numa espécie de delírio fantasmático.

Quem conheça um pouco do trabalho do realizador (lembro apenas o recente "documentário-ficção" sobre Alberto Pimenta, "O Homem Pykante"), saberá que o seu universo nasce, precisamente, dessa ambivalência narrativa: por um lado, somos levados a algum reconhecimento de contextos e lugares; por outro lado, tudo se passa como se o cinema fosse um instrumento apto a dinamitar todas as fronteiras temáticas e simbólicas, funcionando como uma verdadeira "trip" estética que é também uma desencantada parábola política.

Estamos perante um cinema de risco & consequência, para o melhor e para o pior desafiando o espectador a questionar a sua condição de... espectador. E tanto mais quanto a experimentação de Pêra o leva também a propor uma (actualíssima) variação sobre a duração clássica do plano/imagem, fazendo quase todo o seu filme através de um jogo de obsessivas sobreposições. Em resumo: um filme que nos leva a repensar os efeitos, lógicas e fundamentos da arte narrativa que aplica imagens e sons.

Crítica de João Lopes
publicado 23:48 - 03 outubro '19

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