À descoberta de um recanto de África
Uma visão da repressão no Mali assinada por um cineasta da Mauritânia

Cannes 2014: TIMBUKTU, Abderrahmane SISSAKO  

À descoberta de um recanto de África

A denúncia do fundamentalismo religioso chega a Cannes através de um filme da Mauritânia: "Timbuktu" é um drama remoto que, afinal, nos toca pela universalidade das suas emoções.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 À descoberta de um recanto de África
Timbuktu Não muito longe de Timbuktu, cidade subjugada pelos extremistas religiosos, Kidane leva uma vida simples e tranquila com a sua família. Mas os moradores sofrem, impotentes, com a lei dos jihadistas: acabou a música e os risos, os cigarros, e até mesmo de futebol ... As mulheres tornaram-se sombras que tentam resistir com dignidade. Os tribunais improvisados ditam, diariamente, sentenças trágicas ...
Média Cinemax:
2.667

É bem verdade que um festival de cinema pode ser, de uma só vez, uma montra para as narrativas do mundo e um painel de informações sobre o próprio mundo. "Timbuktu", de  Abderrahmane Sissako, integrado na competição de Cannes, é um bom exemplo dessa dualidade: um filme sobre uma zona do Mali dominada por fundamentalistas islâmicos e uma contribuição didáctica para nos inteirarmos de uma situação de profundo dramatismo.

Sissako é um cineasta da Mauritânia radicado em França desde os anos 90, mas que manteve uma relação regular e empenhada com os temas do seu país e do norte de África. Neste caso, trata-se de fazer o retrato de um recanto do Mali a que os extremistas religiosos impuseram modos de vida que, além de brutalmente repressivos, visam em particular as mulheres.

A acção do filme é muito simples e, ao mesmo tempo, muito perturbante. Tudo se passa em torno de uma família e do seu gado, numa rotina aparentemente sem sobressaltos que vai ser posta em causa por uma diferendo com um pescador... A partir daí, assiste-se a um crescendo de violência que se vai traduzir na imposição de uma "lei" desumana e arbitrária.

Sissako filma de forma directa, por assim dizer realista, embora sem abdicar de uma certa dimensão metafórica, nomeadamente na encenação das crianças. "Timbuktu" é um daqueles filmes que, através da estranheza dos seus sinais e das singularidades dos seus eventos nos faz sentir, afinal, uma tocante proximidade afectiva com os dramas das suas personagens mais vulneráveis.

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publicado 21:31 - 15 maio '14

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