A herança cinematográfica de Marguerite Duras
"India Song" (1975): peça central do mundo cinematográfica de Marguerite Duras

Efeméride  

A herança cinematográfica de Marguerite Duras

O nome de Marguerite Duras corresponde a uma singular obra literária e também a um fascinante universo cinematográfico — se fosse viva, completaria hoje (4 de Abril) 100 anos.

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João Lopes
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Marguerite Duras nasceu em Saigão, na então Indochina Francesa, a 4 de Abril de 1914 — foi há 100 anos.

O mínimo que se pode dizer da sua herança cinematográfica é que nela se consuma uma das mais complexas e fascinantes cumplicidades narrativas entre literatura e cinema. Dito de outro modo: não se trata apenas de dizer que Duras soube "adaptar" os seus livros para os filmes, mas sobretudo que ela conduziu os filmes, através da palavra escrita, a universos de inusitado esplendor.

Seja como for, Duras começou por ser uma escritora cujos argumentos foram filmados por outros. E dessa fase ficou, obviamente, uma fundamental referência: "Hiroshima Meu Amor" (1959), dirigido por Alain Resnais, título fundamental na afirmação da Nova Vaga francesa.

A partir do momento em que começou a realizar os seus próprios filmes, sendo "Détruire, Dit-Elle" (1969) o primeiro trabalho que assina a solo, Duras trouxe para o cinema um singularíssimo sentido criativo e moral: por um lado, os filmes são instrumentos contundentes ao serviço da desmontagem das ilusões do real; por outro lado, por um paradoxo sem nome, o cinema pode ser também a abertura magoada para uma nostalgia das grandes imaginações utópicas.

"India Song" (1975) será, talvez, a concretização mais depurada de tal visão: a história dos amores da mulher do embaixador francês na Índia da década de 1930 é também um exercício magoado sobre as impossibilidades de todos os romantismos. E de tal modo a palavra se impõe como uma matéria vital de expressão e sensualidade que, logo a seguir, Duras realizou "Son Nom de Venise dans Calcuttá Désert" (1976), retomando os mesmos diálogos, agora em assombrados cenários sem seres humanos — sempre com a música encantada e encantatória de Carlos D'Alessio.


Nesta perspectiva, pode dizer-se que o filme "O Amante", dirigido por Jean-Jacques Annaud em 1992 — a partir do romance homónimo que, em 1984, valera o Prémio Goncourt a Duras —, é o menos significativo da sua trajectória cinematográfica. De facto, Annaud privilegia um "lirismo" visual e narrativo que está mais próximo da iconografia publicitária do que da densidade passional da escrita da autora.

Marguerite Duras faleceu a 3 de Março de 1996, não muito tempo passado sobre o lançamento de "C'est Tout", pequeno grande livro de reconhecimento e aceitação da morte. O seu derradeiro título cinematográfico, "Les Enfants" (1984), ficou como um belo conto moral sobre um tema transversal da sua obra: a energia inclassificável da infância e o seu bizarro isolamento face ao sistema de valores dos adultos.

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publicado 21:26 - 04 abril '14

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