A herança de Eric Rohmer ou o amor das palavras
Eric Rohmer (1920 - 2010)

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A herança de Eric Rohmer ou o amor das palavras

Morreu uma das figuras centrais da Nova Vaga francesa: o seu cinema explorou de forma admirável as palavras e as suas ambivalências

Falecido aos 89 anos, Eric Rohmer é uma daquelas personalidades que, para além da excelência da obra pessoal, contribuíu para definir o quadro global (prática & pensamento) do cinema moderno. Com Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette e Claude Chabrol, foi um dos símbolos activos da Nova Vaga francesa — e tanto mais quanto durante alguns anos (1957-1963) desempenhou as funções de chefe de redação da revista "oficial" do movimento, os "Cahiers du Cinéma".

É provável que muitos espectadores do presente o conheçam, sobretudo, através dos seus derradeiros três títulos: "A Inglesa e o Duque" (2001), uma visão pouco ortodoxa da Revolução Francesa, "Triplo Agente" (2004), história rocambolesca de espionagem no pré-Segunda Guerra Mundial, e "Os Amores de Astrea e de Celadon" (2007), uma exaltação dos poderes do amor a partir de um texto do século XVII. Não quer isso dizer, no entanto, que ele tenha sido um cineasta "histórico", pelo menos no sentido corrente da expressão.

Rohmer foi, acima de tudo, um contador de histórias em que as palavras e as suas ambivalências sempre desempenharam um papel fulcral: as suas personagens revelam-se (e escondem-se) através da fala — não por razões "literárias", antes porque o diálogo é um mecanismo de comunicação que envolve as próprias contradições do factor humano.

Dir-se-ia que os seus filmes contemplam as infinitas variações dessas incessantes trocas de palavras — e fazem-no com um intransigente amor pela sua precisão e mistério.

Não terá sido por acaso que o carácter obsessivo da démarche de Rohmer se traduziu em várias séries "temáticas": 'Seis Contos Morais' (1962-1972), 'Comédias e Provérbios' (seis filmes, 1981-1987) e 'Contos das 4 Estações' (1990-1998). De forma mais ou menos arbitrária, podemos recordar três títulos capazes de condensar o trabalho desenvolvido em cada uma dessas séries: respectivamente, "A Minha Noite em Casa de Maud" (1969), "A Mulher do Aviador" (1981) e "Conto de Verão" (1996).

A herança de Rohmer confunde-se com uma atitude inerente a toda a agitação criativa da Nova Vaga: experimentar novos arranjos de linguagem, sem nunca menosprezar o património cinematográfico — ele foi também, afinal, em particular nas páginas dos "Cahiers du Cinéma", um dos mais brilhantes críticos da sua geração.
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NOTA: Em finais do ano passado, no mercado do DVD, foram editadas as 'Comédias e Provérbios' (Atalanta) e os 'Contos das 4 Estações' (Midas); desde o início de 2009, já existiam os 'Seis Contos Morais' (Atalanta).

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