Estreia: NANA  

A infância em estado selvagem

A primeira longa-metragem de Valérie Massadian propõe a observação das rotinas de uma criança de quatro anos, sozinha numa casa no campo. Um filme sobre os processos de crescimento.

A infância em estado selvagem
Mãe e filha, relação singular numa história primitiva.
Subscrição das suas críticas
135
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 A infância em estado selvagem
Nana Nana (Kelyna Lecomte) é uma menina de 4 anos que vive perto da floresta com a mãe e o avô. Um dia, ao regressar da escola, encontra a casa vazia e silenciosa. Passado o choque inicial, a sensação de vazio, Nana retoma a sua vida normal: veste-se, alimenta-se, brinca e cuida da casa. É assim que esta menina marca uma posição no mundo sombrio, numa infância obscura marcada pelo abandono, entregue à ...
Cinemax Rádio:
Outros Áudios
Antevisão "Nana"

Primeiro entramos no mundo rural em dose de choque, para assistir no começo do filme, à matança de um porco. Depois acompanhamos Nana, a criança que vive com a mãe, numa casa afastada de tudo no campo. As duas cumprem rotinas diárias, que passam por apanhar lenha para a lareira, fazer refeições, ler histórias ou ter brincadeiras no meio dos campos.

Sem qualquer explicação, a mãe de Nana desaparece desta rotina e passamos a observar a criança pequena entregue às mesmas tarefas, usando algumas das experiências que já presenciou para garantir a sobrevivência.

Uma experiência de trabalhar sobre instintos primários, é assim que a realizadora descreve a vontade que a levou a realizar uma longa-metragem com uma criança de quatro anos. Valérie Massadian tem discurso solto sobre o que faz mover e rapidamente assumiu que tudo começou com palavras soltas escritas num papel. Tinha uma ideia de explorar temas como infância, morte, solidão ou abandono, e candidatou-se a subsídio para realizar uma curta-metragem, que acabou por transformar-se em longa.

A única certeza era a vontade de trabalhar com uma criança, porque segundo diz, absorvem o mundo de forma diferente e não são ainda seres sociais, vivem num quase estado selvagem de apreensão do que as rodeia, como se ainda não estivessem domesticadas. Valérie Massadian reconhece que é o universo com que se identifica e solta a afirmação por entre gargalhas - acho que tenho um problema com a domesticação!

Kalyna Lecomte é a pequena protagonista, escolhida através de um casting com 80 crianças. A realizadora não teve dificuldade em reconhecer-se na personalidade forte, mesmo que mascarada por quatro anos de idade. Kalyna é uma criança que responde aos desafios e a pequenas provocações que tornam possível a tarefa de a dirigir para estar frente à câmara. A realizadora descobriu que bastava sugerir que talvez ela não conseguisse fazer determinada tarefa, para no minuto seguinte ela estar a fazê-la.

"Nana" é um trabalho próximo do cinema documental, na medida em que a realizadora se propõe intervir o menos possível na ação, e sem ter como objectivo final contar uma história. O filme capta uma circunstância, a de assistir à forma como uma criança vai conseguindo desenvencilhar-se nas tarefas da casa, e como isso a torna independente, em pleno processo de crescimento.

Na conversa com Valérie Massadian fica bem vincada a ideia de quem não tem pretensões a filmar contos de fadas, nem escrever ensaios dramáticos para converter em cinema. Há um lado de enfant terrible na forma como gosta de trabalhar, abdicando de uma grande equipa em função de uma grande dose de intimidade e cumplicidade com quem está frente à câmara.

No final do filme, Valérie Massadian agradece a Mel, o filho, e a Pedro Costa, cineasta português com quem se relaciona. Este é um assunto sobre o qual prefere não falar, mas mesmo assim refere a admiração que sente por um autor que decidiu ir contra o sistema e tentar fazer à sua maneira solitária. É o modelo para Valérie Massadian, uma cineasta que assume um lado selvagem de quem não quer ser formatada no cinema.

Crítica de Lara Marques Pereira
publicado 22:45 - 15 maio '12

Recomendamos: Veja mais Críticas de Lara Marques Pereira