A moral segundo Paul Schrader
Natasha Richardson e Rupert Everett — Veneza, para além do enigma policial

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A moral segundo Paul Schrader

Paul Schrader é um dos autores em destaque na actual edição do LEFFEST — entre os títulos menos conhecidos da sua filmografia está o brilhante "Estranha Sedução", adaptado de um romance de Ian McEwan.

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A retrospectiva que a 12ª edição do LEFFEST dedica ao cineasta americano Paul Schrader (n. 1946) poderá ser, para muitos espectadores, uma genuína surpresa. Isto porque é verdade que o seu nome está consagrado através de trabalhos como o argumento de "Taxi Driver" (1976), de Martin Scorsese, ou a realização de títulos tão emblemáticos como "American Gigolo" (1980) ou "A Felina" (1982); mas não é menos verdade que a sua obra envolve os mais surpreendentes ziguezagues.

Ainda recentemente, tivemos o exemplo do admirável "No Coração da Escuridão", típico filme de produção independente que, através de um "fait divers", consegue um retrato invulgar e contundente de uma certa crise moral que contamina o tecido social americano. Poderíamos ainda recordar os exemplos modelares de filmes tão esquecidos como "O Rapto de Patty Hearst" (1988) ou "Auto Focus" (2002), este uma incursão nos bastidores televisivos que, entre nós, não chegou às salas escuras.

"Estranha Sedução", uma produção de 1990, será um dos casos mais extremos entre os seus filmes menos conhecidos. Paradoxalmente, é também, em termos industriais, um dos mais ambiciosos, já que, além de adaptar um romance de Ian McEwan ("The Comfort of Strangers"), conta com um elenco dominado por um notável quarteto: Christopher Walken, Natasha Richardson, Helen Mirren e Rupert Everett. É também, curiosamente, uma das suas poucas realizações para a qual Schrader não escreveu o argumento — a respectiva autoria pertence a Harold Pinter.

Através de um perverso jogo de espelhos, de algum modo enfatizado pelos cenários de Veneza em que decorre a acção, Schrader filma a experiência limite de um casal, enredado num enigma policial que implica, afinal, um desafio radical à sua própria consistência. Dito de outro modo: Schrader é um moralista das relações humanas, admirável e conciso, já que o que ele expõe são as fragilidades dos próprios dispositivos morais em que as suas personagens se refugiam.


* MONUMENTAL

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publicado 02:53 - 19 novembro '18

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