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A música enigmática dos seres humanos

Belíssimo reencontro com o cinema de André Téchiné: com Catherine Deneuve e Kacey Mottet Klein, "O Adeus à Noite" expõe-nos uma relação em que os conflitos de gerações espelham sinais das convulsões políticas.

A música enigmática dos seres humanos
Kacey Mottet Klein e Catherine Deneuve, sob o olhar metódico de André Téchiné
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Digamos, para simplificar, que André Téchiné é um dos maiores directores de actores do último meio século da produção francesa, sendo a sua relação de trabalho com Catherine Deneuve — oito filmes, a começar por "Hôtel des Amériques/O Segredo do Amor" (1981) — o símbolo mais esclarecedor das suas qualidades. "O Adeus à Noite", revelado no Festival de Berlim de 2019, é a mais recente colaboração Deneuve/Téchiné e o menos que se pode dizer é que o seu trabalho permanece fiel a uma noção de romanesco com raízes na mais nobre tradição francesa — sendo obrigatório evocar a referência tutelar de Jean Renoir.

Em todo o caso, mais do que nunca, importa relembrar que tal tradição não é, de modo algum, uma mera deambulação abstracta protagonizada por personagens desligadas de qualquer contexto histórico. Bem pelo contrário, há em Téchiné uma atenção regular, e muito elaborada, aos sinais de transformação da sociedade francesa e, em especial, ao modo como as diferenças e conflitos de gerações podem reflectir as convulsões políticas.

"O Adeus à Noite" é, justamente, uma ficção em que ecoam tais convulsões, uma vez que nele observamos a relação tensa entre uma avó e o seu neto — ela acolhe-o para uma estadia na propriedade onde mantém uma escola de equitação; ele está envolvido num processo trágico, de uma só vez afectivo e ideológico, que o pode levar a integrar as fileiras do Estado Islâmico...


Convém, entenda-se, evitarmos as generalizões automáticas. Este não é um filme sobre todas as "diferenças" de gerações, como está longe de ser uma tese sobre o "terrorismo". Téchiné não é um ilustrador de temas "globais", antes um paciente, metódico e, à sua maneira, obsessivo observador das singularidades dos seres, homens e mulheres, velhos e novos. De alguma maneira perguntando sempre: o que faz com que duas personagens se reunam num espaço de cumplicidade ou se separem num território de conflito?

Nesta perspectiva, o que mais conta no cinema de Téchiné não são as "ideias" que esta ou aquela personagem pode encarnar, antes o tecido quotidiano em que descobrimos os seres humanos enredados nas suas angústias, equívocos e fragilidades. Cada situação não serve, por isso, para fazer "avançar" a história que se conta — essa história existe através dos pequenos gestos, das palavras incisivas, dos silêncios perturbantes, enfim, tudo aquilo que faz de cada ser um enigma nunca resolvido para o outro.

Eis um universo criativo que funciona também como espaço de acolhimento das mais diversas formas de criatividade. Assim, na ficha artística, para além da presença sempre singular e intensa de Deneuve, importa destacar o talentoso Kacey Mottet Klein, no papel do neto, ele que já rodara sob a direcção de Téchiné em "Quando Se tem 17 Anos" (2016). Uma nota muito especial vai para Alexis Rault (n. 1981) e para a sua magnífica banda sonora [aqui em baixo, o tema-título] — este é, afinal, um romanesco de contagiante musicalidade.

Crítica de João Lopes
publicado 19:05 - 07 agosto '20

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