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A odisseia política de um idealista

Jan Mikolasek foi um curandeiro que adquiriu uma dimensão quase mítica na Checoslováquia, depois da Segunda Guerra Mundial: "Charlatão" evoca a sua prática e o julgamento a que foi sujeito pelo aparelho estatal do seu país.

A odisseia política de um idealista
Ivan Trojan interpreta Jan Mikolasek: memória da Checoslováquia pós-Segunda Guerra Mundial
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 A odisseia política de um idealista
Charlatão Inspirado na vida de Jan Mikolášek (1889-1973), um curandeiro checo que tratou centenas de pessoas utilizando remédios naturais, o filme tem como pano de fundo as duas Grandes Guerras e as três mudanças de regime que marcaram o contexto sócio-político da Checoslováquia ao longo do século XX. Apesar do seu dom para o diagnóstico e para a cura, os métodos pouco convencionais de Mikolášek nem sempre ...

Agnieszka Holland, nascida em Varsóvia há 72 anos, é uma veterana da produção cinematográfica da Polónia com uma obra em que as contradições do chamado socialismo real têm um peso decisivo. Mais exactamente, a herança traumática da Segunda Guerra Mundial leva-a a interessar-se pelas convulsões do pós-guerra nos países do leste europeu.

Assim volta a acontecer em "Charlatão", baseado na história verídica de Jan Mikolasek, um curandeiro que, na Checoslováquia, depois da Segunda Guerra Mundial, se tornou famoso por tratar e curar muitos doentes através de ervas mais ou menos milagrosas. Mais do que isso: o essencial dos seus diagnósticos resultava "apenas" da análise de amostras de urina dos seus pacientes.

"Charlatão" não é tanto sobre as questões médicas que a personagem pode suscitar, mas mais sobre o conflito entre a sua prática e a acção das autoridades que não toleram a existência de alguém que escapa a um sistema de organização puramente estatal. O mais interessante do filme tem que ver com as convulsões desse conflito — há na personagem do curandeiro um idealismo, misturado com misticismo, que não é tolerado pelas directrizes políticas de um Estado autoritário, por vezes extremamente violento.
 
É pena que um certo academismo da narrativa — com sucessivos flashbacks que vêm "explicar" todo o processo que levou as autoridades a investigar, prender e julgar Mikolasek — limite a energia dos resultados. Seja como for, há nas personagens uma verdade física e emocional que, para lá do talento dos intérpretes, confirma Agnieszka Holland como uma excelente directora de actores: o destaque obrigatório para o checo Ivan Trojan na personagem central do curandeiro.

Crítica de João Lopes
publicado 18:21 - 16 maio '21

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