A outra face de Abel Ferrara

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A outra face de Abel Ferrara

O CINEMAX entrevistou o realizador Abel Ferrara durante o recente Estoril & Lisbon Film Fest. Aos aos 61 anos, o cineasta já não parece estar revoltado.

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Entrevista Abel Ferrara

Tem fama de ter génio difícil, dado a más disposições, mas durante a conversa com o CINEMAX, no Estoril, Abel Ferrara mostrou uma outra face. Conversador, cordial, bem humorado e até generoso, o realizador aceitou falar do passado, dos filmes violentos e das escolhas que fez, como a de deixar a cidade de Nova Iorque, que entretanto parece povoada de muitos fantasmas.

Ferrara afirmou-se como um dos nomes do cinema americano independente na década de 90, ao dirigir personagens violentas num sub mundo de drogas e crime, centrado em Nova Iorque. Era um tempo de muitos excessos, que Abel Ferrara já abandonou. Aos 61 anos, o cineasta mudou-se para o sul de Itália, e já não parece estar em revolta.

O rótulo de cineasta independente foi criado através de filmes como "O Rei de Nova Iorque" ou "Polícia Sem Lei", que têm a marca de um cineasta que ousava colocar em causa a moral e os bons costumes. Uma forma de liberdade criativa, que Abel Ferrara atribui a algo muito profundo, à capacidade de sentir a liberdade que vem de dentro. Diz o cineasta, que todos nascemos com essa possibilidade, mas ao longo do tempo, vamos ficando presos nas escolhas e numa espécie de contrato social que nos aperta e limita.

A violência foi uma das imagens de marca do cineasta, por exemplo com a personagem inesquecível que Harvey Keitel compôs para o filme "Polícia Sem Lei". Um agente descontrolado, enraivecido, sem escrúpulos e sem moral. Abel Ferrara recorda que nesse tempo fazia filmes a partir do lugar em que se encontrava, e era um lugar de sofrimento. Fazia filmes violentos, a partir de um traço obscuro e explosivo que o definia, mas hoje em dia já não se revê na pele de cineasta sem dó nem piedade.

Também já não se revê na cidade de Nova Iorque, onde nasceu, e onde faz praticamente todos os filmes, como se fosse uma espécie de cronista alternativo da cidade. Agora, diz Ferrara, Nova Iorque está povoada de memórias e imagens do passado, e isso não é saudável para se viver. Foi por causa destes fantasmas, que decidiu mudar de casa, para o sul de Itália, onde já viveu anteriormente.

O futuro passa por dois projectos, mas que ainda não estão financiados. Um filme sobre o último dia na vida do realizador italiano Pier Paolo Pasolini e um outro, com o actor Gérard Depardieu, sobre Dominique Strauss Khan, o antigo director do FMI que deixou o cargo devido a um escândalo sexual.

Ainda não tem dinheiro para nenhum dos projectos, e tudo por causa desta nova palavra que está na boca de todo o mundo: a crise. Aqui, Abel Ferrara ganha fôlego e atira vários significados para a palavra crise, sempre alinhados com a mesma ideia base, de que a crise não é de todos, mas apenas provocada por quem tem dinheiro e sentida por quem não tem.

Aproveita para aconselhar os dirigentes europeus a não ficarem na expectativa de que o novo mandato de Barak Obama possa mudar algo no rumo do mundo, porque o presidente americano, que Ferrara assume gostar, tem demasiado trabalho para fazer em casa, antes de se preocupar com os problemas da Europa.

Quanto à Abel Ferrara, parece ter deixado em Nova Iorque, as preocupações e o mau génio. Depois de concluída a entrevista, propõe com simpatia, cantar e tocar uma canção no piano do bar do Hotel (ouça reportagem áudio Cinemax rádio).

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