A perspectiva do invisível
A mulher do médico, o médico, a mulher do primeiro homem que cega, a mulher de óculos escuros, a criança perdida da mãe... - DR

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A perspectiva do invisível

Já está em exibição "Ensaio sobre a cegueira", o filme que o realizador brasileiro Fernando Meirelles adaptou do romance escrito por José Saramago, Nobel da Literatura, em 1995.

O livro é uma alegoria sobre uma civilização fragilizada, incapaz de observar e entender o que a rodeia - os cidadãos contaminados por um surto de uma doença branca vão sendo encarcerados em sanatórios ou edifícios públicos decadentes. Com a autoridade de quem o leu várias vezes, em 1997, quando ainda não tinha garantido os direitos de adaptação, Fernando Meirelles assume que ficou "encantado" com as múltiplas portas de entrada que encontrou. "Podemos entendê-lo como drama psicológico, alegoria sobre o ser humano, alegoria filosófica, ou filme politico sobre como se reorganiza uma sociedade desde o começo…"

Entrevistado em Maio passado, no Festival de Cannes, onde "Cegueira" foi exibido na noite de abertura, assumiu o distanciamento da dimensão alegórica. "Tentei fazer um filme mais naturalista, com um registo de interpretação, de cenário e de luz que coloque o espectador naquela situação." Esta ideia traduziu-se pelo recurso a um processo de iluminação excessiva do ecrã que ilustra a doença branca, um efeito que procura transmitir a sensação de cegueira tal como descrita no livro, essa sensação de mergulhar com os olhos abertos num mar de leite. O estilo vibrante do cinema de Fernando Meirelles - uso de cores nítidas, câmara oscilante, montagem frenética, enquadramentos assimétricos - ganha todo o sentido neste exercício complexo de definir um ponto de vista invisível.

O realizador preservou os momentos mais marcantes do romance e correspondeu à ideia de uma abstracção, de uma história que acontece em lugar nenhum - a cidade não está identificada e o elenco com actores latinos, brancos, pretos, orientais, é uma representação da humanidade. "Estamos a falar do ser humano e não especificamente de um regime, de um país ou de uma região".

É curioso porque o cinema de Fernando Meirelles está justamente em nenhures - "Cidade de Deus" é um filme brasileiro, "O Fiel jardineiro" é anglo-saxónico, enquanto que "Cegueira", é uma co-produção canadiana, japonesa e brasileira que foi rodada em Toronto e São Paulo. O realizador resume: "é um filme internacional, um filme do mundo…"

Nos próximos meses, Meirelles pretende descansar, trabalhar e passar mais tempo no Brasil. Assume que não tem planos para filmar em Portugal, apesar da forte afinidade que decorre de uma remota origem familiar. E se Saramago ceder os direitos de outra obra, "As Intermitências da Morte", por exemplo? Aí depende…

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
De Fernando Meirelles, com Julianne Moore, Mark Ruffallo, Gael García Bernal


Texto inicialmente publicado na edição do Jornal de Notícias de quarta-feira, dia 12




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