Reposições  

A vida interior segundo Peter Handke

As reposições continuam, felizmente, a marcar a actualidade do mercado cinematográfico. Agora, é a vez de "A Mulher Canhota" (1978), primeira longa-metragem realizada pelo escritor alemão Peter Handke.

A vida interior segundo Peter Handke
Bruno Ganz, Peter Handke e Edith Clever — rodagem de "A Mulher Canhota"
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A noção de cinema psicológico caíu em desuso. Em boa verdade, em muitos casos passou a ser entendida como uma designação dos produtos que se submetem a estereótipos televisivos, reduzindo a caracterização das personagens a "modelos" mais ou menos simplistas, quase sempre moralistas. Em todo o caso, vale a pena lembrar que a vida interior das personagens está longe de ser um terreno indiferente na longa e contrastada história dos filmes.

Daí que se saúde o regresso às salas escuras de "A Mulher Canhota" (1978), do alemão Peter Handke, justamente um exemplo admirável de um cinema que encara as derivas psicológicas, não como uma "ilustração" de comportamentos, antes como uma deambulação pelos labirintos insondáveis do comportamento humano — foi a estreia na realização de Handke, adaptando o seu romance homónimo, editado dois anos antes.


A história do par interpretado por Edith Clever e Bruno Ganz pode definir-se como um melodrama clássico virado do avesso. A partir do momento em que acontece a sua separação, Handke desloca o seu filme para a paisagem feminina, construindo uma rede de factos, palavras e silêncios que nos toca pelo seu misto de transparência e mistério. E escusado será sublinhar que o trabalho dos actores, sobretudo a admirável Clever, é essencial para os resultados (recorde-se que, dois anos antes, ela protagonizara "A Marquese d'O", sob a direcção de Eric Rohmer).

Integrado no ciclo de reposições centrado no cinema de Wim Wenders, "A Mulher Canhota" surge como um título produzido pelo próprio Wenders, ele que já filmara duas vezes a partir de argumentos de Handke: "A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty" (1972) e "Movimento em Falso" (1975). Mais tarde, Handke escreveria outro título de Wenders, "As Asas do Desejo" (1987), este reposto anteriormente. No contexto português, é mais uma possibilidade de (re)descoberta de um filme com quase 40 anos, confirmando que as reposições vieram para ficar.

Crítica de João Lopes
publicado 22:25 - 10 fevereiro '17

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