Alain Tanner: da Suíça para o mundo
"Jonas": filme de 1975, especulando sobre a utopia do ano 2000

LEFFEST 2017  

Alain Tanner: da Suíça para o mundo

Entre as retrospectivas propostas pelo LEFFEST, a do suíço Alain Tanner envolve uma especial redescoberta — afinal de contas, a noção de "nova vaga" proliferou nos mais diversos contextos, questionando heranças, inventando linguagens.

Não poucas vezes, a noção de "nova vaga" (ou "cinema novo") tende a ser atribuída apenas aos que, em França, deixaram marcas indeléveis na evolução do cinema da década de 60, questionando a tradição, inventando novas linguagens. Ora, mais do que nunca, num contexto em que a proliferação de circuitos de (des)informação favorece as mais diversas formas de apagamento da memória, importa não esquecer os outros países em que o cinema foi, realmente, novo e desafiante.

A Suíça é, justamente, um desses países. Autores como Alain Tanner, Claude Goretta ou Daniel Schmid desempenharam um papel inovador, de uma só vez retratando a sua sociedade com subtil sentido crítico e propondo narrativas capazes de configurar a ideia de um mundo alternativo, tanto no plano estético como ético — do particular para o universal.

A obra de Alain Tanner (nascido em Genebra, em 1929) está presente este ano na edição do LEFFEST através de uma vasta retrospectiva. Além do mais, esta é uma oportunidade para descobrir/compreender que o conhecido filme que Tanner fez sobre Lisboa — "A Cidade Branca" (1982) — está longe de ser suficiente para aceder à pluralidade do seu labor de cineasta.


Eis três sugestões de descoberta:

* REGRESSO DE ÁFRICA (1973)
História insólita de um casal que decide partir para a Argélia, na busca de uma alternativa de vida que, na sua imaginação, adquire os contornos de uma utopia redentora. Na verdade, questões acidentais adiam a partida, de tal modo que iniciam uma viagem emocional e filosófica no interior do seu apartamento... É um exemplo modelar da vertigem paradoxal que anima a obra de Tanner: o mundo lá fora começa, afinal, no interior das nossas fronteiras.
— Monumental (dia 19, 14h00)

* JONAS QUE TERÁ 25 ANOS NO ANO 2000 (1975)
Na época do seu lançamento, o título envolvia uma poética tão expectante quanto angustiada: face à criança que terá 25 anos no ano 2000, os adultos avaliam os seus próprios valores de vida — afinal, trata-se de preparar o futuro daquele ser em estado nascente, mas também de pensar, para ele e para todos, os impasses, alegrias e tristezas do presente. Se Tanner é um utopista/realista, este é o melhor exemplo da sua atitude criativa.
— Monumental (dia 22, 19h00)

* FOURBI (1996)
Eis um dos objectos mais desconcertantes, e também mais fascinantes, na trajectória de Tanner. No centro da sua intriga está uma mulher que, tendo vivido há oito anos uma dramática história de violação, aceita contá-la a um canal de televisão... De facto, nada acontece como previsto e o filme vai-se diversificando numa rede de relações que, por assim dizer, transportam uma interrogação central: afinal, o que é, o que passou a ser, uma relação humana? No plano simbólico, é de uma perturbante actualidade.
— Nimas (dia 23, 14h00)

por
publicado 03:58 - 19 novembro '17

Recomendamos: Veja mais Artigos de Festival