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Alguma televisão, muito pouco cinema

Depois de seis temporadas televisivas, "Downton Abbey" é também um filme: ou como a linguagem cinematográfica passou a ser entendida como uma acumulação de pequenas anedotas (melo)dramáticas...

Alguma televisão, muito pouco cinema
Os criados de "Downton Abbey": à espera da visita do Rei Jorge V...
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Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Alguma televisão, muito pouco cinema
Downton Abbey Este ano, o fenómeno mundial "Downton Abbey" torna-se um grande evento cinematográfico, com os Crawleys e os seus intrépidos funcionários a terem que se preparar para o momento mais importante das suas vidas. Uma visita real do Rei e da Rainha de Inglaterra irá desencadear escândalos, romances e intrigas que deixarão o futuro de Downton incerto. O filme foi escrito pelo criador da série Julian ...

Televisão? Cinema? Um filme que tenta "repetir" as componentes de uma série? Enfim, podemos encarar "Downton Abbey" a partir dos mais diversos ponto de vista, eventualmente (re)avaliando as muitas formas de contaminação que têm marcado as relações entre os ecrãs de todas as dimensões.

Em qualquer caso, a meu ver, a questão é bastante mais rudimentar. Seja qual for a visão (ou até o simples conhecimento) que tenhamos da série criada por Julian Fellowes, este "Downton Abbey" limita-se a assumir a linguagem cinematográfica como uma acumulação de pequenas anedotas (melo)dramáticas em que o luxo dos cenários e o decorativismo das paisagens são tratados, afinal, como um fim em si mesmo.

O ponto de partida não deixa de ser sugestivo: em 1927, cerca de um ano decorrido sobre os acontecimentos finais da sexta temporada da série, a mansão de Downton Abbey, senhores e criados unidos num mesmo êxtase, afadiga-se nos preparativos para uma visita do Rei Jorge V... Tanto basta para relançar uma espécie de passagem de modelos das classes sociais, com cada personagem a ser reduzida a um "cromo" de uma tendência "política", "familiar" ou "afectiva" — triste ideia de cinema...

Em boa verdade, já nem sequer há gosto pela acção enquanto duração (um valor que, convenhamos, muitas ficções televisivas têm sabido explorar com evidente felicidade): "Downton Abbey" é feito de situações tão esquemáticas quanto aceleradas (?), sem grandes preocupações de, no mínimo, valorizar a eventual complexidade emocional desta ou daquela personagem. Sintomático deste retórico tele-cinema: ficamos mesmo com a sensação que está tudo contado no trailer...

Crítica de João Lopes
publicado 22:53 - 21 setembro '19

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