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Almodóvar reencontra Almodóvar

"Dor e Glória" valeu a Antonio Banderas um prémio de interpretação em Cannes, encarnado a personagem de um cineasta à procura da sua própria verdade — ou como o cinema de Pedro Almodóvar reencontra, finalmente, os valores da sua identidade.

Almodóvar reencontra Almodóvar
Pedro Almodóvar e Antonio Banderas — cineasta e actor unidos numa teia de emoções
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 Almodóvar reencontra Almodóvar
Dor e Glória Salvador Mallo, um cineasta em fim de carreira, relembra a sua vida: mãe, amantes, atores com quem trabalhou. Dos anos sessenta numa pequena aldeia em Valência, aos anos oitenta em Madrid, ao presente, quando sente um vazio imensurável diante da sua mortalidade, da incapacidade de continuar a filmar, da impossibilidade de separar a criação da sua própria vida. No meio de tudo isto, a necessidade ...
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Vale a pena evocar o misto de surpresa e alegria com que descobrimos "Dolor y Gloria", em Maio, na competição do Festival de Cannes. De facto, desta vez, Pedro Almodóvar não estava apenas a propor variações mais ou menos "coloridas" sobre alguns dos seus filmes anteriores.

Exemplos como "A Pele onde Eu Vivo" (2011) e "Os Amantes Passageiros" (2013), oscilando entre uma certa formatação do fantástico e a caricatura mais ou menos burlesca, tinham deixado a sensação de um esgotamento temático e estético — muito diferente do período mais primitivo em que encontramos experiências deliciosas como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), Almodóvar parecia contentar-se com a gestão da sua imagem de marca...

Lembremos, por isso, que "Dor e Glória", agora lançado nas salas portuguesas, vive de tudo menos dessa preguiça (?) criativa. Assumindo as componentes autobiográficas da sua narrativa — desde os impasses artísticos até às angústias da sexualidade —, Almodóvar faz um filme que nos devolve o melhor do seu intimismo e da sua pulsação romanesca.

Almodóvar assume o risco de enfrentar as convulsões da sua própria existência, reencontrando-se com uma verdade que nunca cede ao pitoresco cor-de-rosa de um retrato de "curiosidades" pessoais. Nada disso: este é um filme de elaborada tensão emocional, exemplarmente encarnada pela notável composição de Antonio Banderas na personagem central do cineasta que lida, finalmente, com as suas dúvidas e medos.

Enfim, vale também a pena acrescentar que o trabalho de Banderas, por certo um dos mais brilhantes da sua carreira, já lhe valeu o prémio de interpretação masculina em Cannes. Nos EUA, alguns especialistas dos bastidores dos Oscars, começam a considerar que ele conseguirá, no mínimo, uma nomeação na categoria de melhor actor — creio que a previsão não tem nada de exagerado.

Crítica de João Lopes
publicado 00:20 - 05 setembro '19

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