Anticristo: através do medo
Willem Dafoe/Charlotte Gainsbourg:
algures, entre Céu e Inferno

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"Anticristo": através do medo

Com "Anticristo", deparamos com um cinema verdadeiramente adulto: em cena está o modo como nos conhecemos. Ou desconhecemos.

Será que existe uma maneira simples de falar de "Anticristo", de Lars von Trier? Não creio. Seria demasiada ingenuidade (ou sinistra hipocrisia) supor que um filme tão radical pudesse ser visto a partir de um terreno comum, equidistante em relação a todas as diferenças dos seus espectadores. Digamos, então, que um cinema verdadeiramente adulto é assim: intransigente.

Que faz, então, de Anticristo, um filme tão cortante e, à sua maneira, tão agressivo? Não são, por certo as "imagens eventualmente chocantes" — é o facto de sermos confrontados com a banalidade de uma crise conjugal e, ao mesmo tempo, sentirmos que o seu desenvolvimento, não só não se esgota num benigno desequilíbrio "psicológico", como interroga muitos fundamentos morais e existenciais daquilo que somos — ou julgamos ser. Do modo como nos conhecemos e, sobretudo, desconhecemos.

É caso para dizer: o par interpretado pelos fabulosos Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe não está só. Por um lado, a Natureza em que se refugiam (?) não corresponde a nenhuma das mitologias acolhedoras que teimamos em alimentar; por outro lado, a sua solidão não passa de uma aparência institucional, estando de facto habitada por silêncios, medos e espectros que nenhum deles controla.

É um filme para (nos) dividir, insisto. Lars von Trier filma a nostalgia do Céu e a proximidade do Inferno com a frieza metódica de um contador de fábulas. E os séculos ensinam-nos que, para além de todas as diferenças, só há um tema aglutinador de todas as fábulas: o medo. Tenham medo, portanto.
 

 

 


ANTICRISTO
Um casal desolado com a morte do seu único filho, muda-se para uma cabana isolada na floresta Éden, onde coisas estranhas começam a acontecer. A mulher, escritora, tenta desesperadamente livrar-se do sentimento de culpa pela morte de seu filho. O marido, psicanalista, empenha-se em ajudar a sua mulher...

De Lars Von Trier com Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg; Drama, Thriller; 104m; M/18; DINAMARCA; 2009

Ouça a crítica de João Lopes

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publicado 15:09 - 01 fevereiro '10

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