Basil da Cunha na Quinzena dos Realizadores
"Nuvem", o novo filme do luso-suiço Basil da Cunha

Cannes 2011  

Basil da Cunha na Quinzena dos Realizadores

Curta-metragem de cineasta de origem portuguesa seleccionada para secção paralela do festival de Cannes. Realizador explica ao CINEMAX o que distingue o filme.

A curta-metragem "Nuvem", realizada por Basil da Cunha, foi seleccionada para a selecção de curtas-metragens da Quinzena dos Realizadores, e será exibida sexta-feira, dia 20.

Nuvem, a personagem central do filme, é definida pelo realizador como sendo "um vagabundo com particular queda pela deambulação e o devaneio, que prefere a companhia dos cães e dos palhaços e anseia pela liberdade".

O filme com a duração de 30 min., foi rodado num bairro de Lisboa e é uma co-produção luso-suiça, envolvendo a companhia portuguesa O Som e a Fúria.

Basil da Cunha, filho de mãe suiça e pai português, nasceu em Morges, Suiça, em 1985. Actualmente reside entre Lisboa e Genebra.  O seu filme anterior, "À côté" (2009), foi rodado na Suiça e distinguido com o prémio de Melhor Filme em Competição Nacional no Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema 2010.

A produtora O Som e a Fúria marca presença regular em Cannes, tendo apresentado, em edições anteriores da Quinzena dos Realizadores, a longa-metragem "Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, e as curtas "Rapace" e "Canção de Amor e Saúde", ambas de João Nicolau.

 

"O meu cinema não é porno-pobreza(...) Todo o bairro participou do filme. (...) Obrigado Reboleira."

CINEMAX: O que significa estar na Quinzena dos Realizadores em Cannes?

Basil da Cunha: Estar na Quinzena é um prémio para uma ideia do cinema que tentamos desenvolver. Um cinema feito à base de ser humano, e não de interesses diversos que falsificam a nossa ligação com a criação. Um cinema que mistura e confunde vida e trabalho porque quando filmamos e contamos a realidade de uma parte do povo a quem Portugal não quer dar nem oportunidade nem protagonismo, temos  de conviver e partilhar para perceber o que significa esta realidade. Trabalho e vida estao interligados. Nós construimos um projecto no qual todo o bairro participou, dos mais jovens aos mais velhos. Isto não é porno-pobreza como costumo chamar esses "Slumdog Millionaire" e companias limitadas, que vem utilizar a pobreza como um vulgar decor, sem nunca partilhar nem um minuto da vida das pessoas. Nós fazemos com amor e respeito, tudo graças às pessoas que vocês vêm no filme. Este cinema põe o ser humano no centro da actividade artística, o realizador nao é propriamente um "animador de marionetas" que controla tudo de A a Z. Quem entra no filme faz parte integrante do processo de criação. Os tropas da Reboleira participaram tanto na prática como na elaboração da história, da rodagem e da pós-produção, atravês de trocas de ideias, de propostas artísticas e de improvisos sem os quais o filme não podia ser o que é. Estar na Quinzena é prémio antes de tudo para eles. Obrigado Reboleira.

Do que trata Nuvem?

Nuvem é um filme sobre um vagabundo de bairro, rejeitado por todos, que persegue um sonho: conquistar uma empregada de um bar da zona. Ele encontra um misterioso personagem que lhe fala de um peixe-lua que lhe permitira conquistá-la. A partir dai, ele parte em busca deste peixe-lua. Mas quanto mais o sonho dele (simbolizado por este peixe-lua) se afasta, porque a realidade nao permite sonhar muito, mais ele entra num mundo de fantasias onde consegue se aproximar do objectivo dele. É um filme sobre a capacidade das pessoas lutarem contra a impossibilidade de sonhar, mas onde o protagonista não é vitima, como nos filmes ditos "sociais". O protagonista é que foge de um meio que o impede de sonhar, bem que este meio seja o meio de um bairro onde o arcaísmo ainda dá luta aos males do modernismo, onde mesmo assim ainda é possível ver liberdade.

Continua a filmar sem atores profissionais?

Sim, este filme não tem nem um actor profissional. Um actor é so problemas, nem consegue abrir uma porta sem incarnar psicologicamente este acto tão básico.... Vai fazê-lo com uma atitude falsa, um jogo pré fabricado. Um actor não profissional traz realidade e poesia, traz improviso, traz marcas na cara da
vida que nenhum actor consegue imitar, porque não são coisas que se imitam, são coisas que se incarnam.

Em que bairro foi rodado?E

No bairro da Reboleira, na Amadora.

O que justificou a opção do crioulo?

No bairro nao falas português, falas crioulo...Nao fazia muito sentido rodar em português. Mas quando o protagonista fala com um cão, ele fala português...

Como define a sua relação com Portugal e com a Suiça? Cá ou lá…?

Sou português e suiço. Estrangeiro em qualquer dos dois sítios. Aqui vocês vão sempre considerar-me de fora, e lé eles fazem o mesmo, nada de novo para mim. Lá convivo com estrangeiros e imigrantes portugueses, turcos, senegaleses mais do que com suiços. Pessoas de um meio mais underground, mais gueto. Aqui vi logo mais pontos comuns com caboverdianos e angolanos de que com os portugueses.
Interessa é as pessoas e a natureza delas mais do que as origens.



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publicado 13:45 - 19 abril '11

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