Batalha do povo nas linhas de Torres
O êxodo da população portuguesa em direção a Torres Vedras.

Estreia: LINHAS DE WELLINGTON  

Batalha do povo nas linhas de Torres

A incursão do exército de Napoleão em Portugal, em 1810, serve de pretexto para um épico sobre o povo que vive na sombra dos heróis das batalhas, através de múltiplos pequenos dramas de como se vive em tempo de guerra.

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João Lopes
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Antevisão Linhas de Wellington"

Valéria Sarmiento assumiu o comando do projecto "Linhas de Wellington", depois da morte do marido no ano passado, o chileno Raul Ruiz.
O convite partiu do produtor Paulo Branco, para tentar dar continuidade ao trabalho que já estava feito. O argumento escrito por Carlos Saboga, uma parte dos locais de rodagem definidos e um extenso elenco internacional confirmado. Valéria Sarmiento também ela realizadora, e que trabalhou na montagem dos filmes do marido, começou por se assustar com a dimensão do projecto, mas acabou por aceitar o desafio de fazer o filme à sua medida, sem perder a visão de Raul Ruiz.

"Linhas de Wellington" tem a dimensão de épico de guerra, mas onde praticamente não se travam batalhas físicas. É um olhar sobre as populações que rodeiam os militares durante o tempo das invasões napoleónicas, e que vai sendo construído como um mosaico de personagens de vários géneros e origens.

Carlotto Cotta interpreta um militar ferido que combate os franceses, juntamente com os aliados britânicos. Ele ficou para trás a recuperar, e quando se desloca para as linhas de Wellington, é através do seu olhar que encontramos homens e mulheres com diferentes histórias de vida durante a guerra.

Na frente de batalha, Nuno Lopes é um camponês transformado em sargento, que tenta manter a humanidade e os valores, mesmo num tempo em que tudo parece perdido.

O ator Marcelo Urgeghe dá corpo ao Sargento Jonathan Foster, um descendente de britânicos, mas nascido no Norte. É o militar convicto decidido a chegar às famosas Linhas que pode anular de vez o inimigo.

A personagem de Soraia Chaves é Martírio, uma prostituta que há vários anos anda na guerra, acompanhando os soldados e que sem olhar a classes e patentes militares, vai tentando alegrar os combatentes.

Albano Jerónimo surge na figura de um frade que há muito deixou de ser apenas o líder do rebanho de fiéis. Ele comanda um grupo que em nome da Virgem faz uma autêntica cruzada, destruindo todos os franceses que encontrar e despojando-os do que tiverem em nome das necessidades do povo.

Em tempos de guerra também há metáforas, como por exemplo com a personagem Vicente de Almeida, interpretado por Filipe Vargas. Um
homem culto e endinheirado que foge do inimigo carregando a biblioteca pessoal, como se quisesse mostrar que depois da guerra é preciso voltar à cultura.

Finalmente, o ator Adriano Luz, interpreta o poeta que combateu por França, em nome da Liberdade, igualdade e fraternidade, mas chegou à conclusão que numa guerra os ideais não escolhem as vítimas e decidiu voltar para defender o país.

O argumentista Carlos Saboga ("Mistérios de Lisboa") leu memórias de militares que estiveram em Portugal e estudou o período das invasões, mas confessa que se interessou menos pelas personagens históricas, e preferiu dar visibilidade aos dramas pessoais, acompanhando as pessoas comuns e as vidas que se transformam com a guerra.

Talvez por isso, os dois líderes militares que se opõem, o ator Melvil Poupaud entre os gauleses, e o general Wellington composto por John Malkovitch do lado britânico, surjam como caricaturas sem profundidade.

A salvo das batalhas, a nobreza de França é interpretada por um trio de excelência, composto por Catherine Deneuve, Michelle Picoli e Isabel Huppert, numa pequena cena cómica, mas também sem qualquer importância dramática.

Os homens e mulheres em tempo de guerra são o foco das atenções do argumento, e para lá do que está escrito, há a noção de um outro tempo na Europa. Valéria Sarmiento sublinha a importância de fazer um filme sobre um período em que os europeus se debatiam com invasões entre si, felizmente bem longe da actual união de estados.

A realizadora acredita que o filme pode mostrar aos europeus que sofrem com a crise financeira, como é melhor viver numa Europa dividida por questões financeiras, do que num continente fraturado por guerras sangrentas.

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