Benjamin Button,passageiro do tempo
Brad Pitt interpretando a personagem de Benjamin Button: à escuta do movimento dos relógios

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Benjamin Button,
passageiro do tempo

De "Se7en" a "Zodíaco", David Fincher é um autor capaz de desafiar todas as certezas com que se faz o cinema — assim acontece, uma vez mais, com "O Estranho Caso de Benjamin Button"

Entre os contemporâneos, o americano David Fincher partilha com outros cineastas como o francês Jacques Rivette, o canadiano David Cronenberg ou o russo Aleksandr Sokurov um estatuto muito especial: é um verdadeiro autor de culto.

Nada disso tem a ver com o maior ou menor impacto comercial do seu trabalho. Acontece que sabemos que os seus filmes são sempre capazes de desafiar, não apenas a nossa sensibilidade e pensamento, mas também, em última instância, a própria definição de cinema — "Se7en" (1995), "Clube de Combate" (1999) e "Zodíaco" (2007) poderão servir de prova.

Agora, com "O Estranho Caso de Benjamin Button" — adaptado de um belíssimo conto de F. Scott Fitzgerald, publicado em 1922 —, Fincher convida-nos para uma viagem, não apenas no tempo, mas por assim dizer através das coordenadas temporais. Isto porque o seu herói, Benjamin Button (fabuloso Brad Pitt) é alguém que nasce com aspecto de velho, rejuvenescendo à medida que vai... envelhecendo.

Que temos, então? Dir-se-ia uma crónica romântica virada do avesso — qualquer aproximação da morte remete-nos para o desamparo primordial da infância. Daí que esta seja também uma história de reavaliação de tudo aquilo que faz, ou pode fazer, uma existência humana: a descoberta da paixão, o significado da entrega amorosa, o gosto da descoberta do outro, enfim, o desejo de construção de laços duradouros com os que sentimos mais próximos.

"O Estranho Caso de Benjamin Button" acaba por ser também um objecto de combate à "evidência" que todos os dias as linguagens televisivas nos querem impor. Na verdade, um ser humano é, em si mesmo, um mapa de territórios próximos e distantes, pacíficos e bélicos — por vezes, para tentarmos compreendê-lo (ou compreender-nos), é preciso duvidar de todas as certezas, incluindo essa que nos ensina que os relógios andam sempre para a frente.

Ouça a crítica de João Lopes

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON - THE CURIOUS CASE OF BENJAMIN BUTTON, De David Fincher, com Brad Pitt, Cate Blanchett, Tilda Swinton; Drama, Romance; 159 min; M/12; EUA; 2008

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publicado 17:59 - 29 janeiro '09

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