Carax, o inclassificável
Denis Lavant em "Holy Motors": aventuras num mundo de máscaras

Cannes 2012  

Carax, o inclassificável

Leos Carax, poeta sempre surpreendente do cinema francês, apresenta uma estranha aventura na noite de Paris: "Holy Motors" é, por certo, um dos títulos mais desconcertantes de todo o festival.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Carax, o inclassificável
Holy Motors Do amanhecer ao anoitecer, algumas horas na vida de Oscar, uma personagem sombria que viaja entre vidas. Ele é assassino, mendigo, monstro, homem de família... Ele parece estar a interpretar papéis, mergulhando de cabeça em cada parte... mas onde estão as câmaras? Oscar está sozinho, acompanhado apenas por Céline, a esguia mulher loira por trás do volante do potente motor que o transporta por ...
Média Cinemax:
2.833

Alguns espectadores mais cépticos de Cannes parecem ter ficado desiludidos com a falta de "racionalismo" que apontaram no novo filme do francês Leos Carax, "Holy Motors" (competição). Claro que o filme é suficientemente insólito para suscitar as mais diversas (e legítimas) reacções. Em todo o caso, este é um objecto de cinema em que Kylie Minogue (é verdade, ela está a experimentar uma carreira de actriz...), ao evocar um amor passado, começa a cantar no telhado de um edifício de Paris. Mais do que isso, há chimpazés que não surgem propriamente como num documentário do National Geographic... Enfim, na sua inclassificável energia, o trabalho de Carax pode ter a ver com muitas coisas mas, por certo, não com qualquer visão "naturalista" do que quer que seja.

Digamos, então, que se trata de uma parábola sobre um mundo em que tudo é máscara e todos se mascaram. Bastará referir que o protagonista, o bizarro Monsieur Oscar (Denis Lavant, actor fetiche de Carax), é alguém que circula numa limusina, à noite, por Paris, assumindo sucessivas e contrastadas personagens, desde um pai que vai buscar a filha à escola até um velho agonizante...

Que faz exactamente Oscar? Porque o faz? E para quem? Em boa verdade, o filme prefere conservar a sua dimensão de provocação poética, evitando qualquer solução "policial" do enigma: "Holy Motors" existe como uma colagem de situações que, na sua estranheza, desafiam as falsidades do território em que ocorrem.

Se é preciso encontrar uma referência para o trabalho de Carax, ela estará, muito provavelmente, na obra do grande Georges Franju (1912-1987), retratista de um mundo de ambiguidades e interrogações, consagrado em títulos como o emblemático "Les Yeux sans Visage" (1960).

Pormenor nada secundário: perto do final do filme de Carax, Edith Scob usa uma máscara idêntica à que surge nesse filme de Franju. Mais do que isso: a uma distância de mais de meio século, ela foi também uma das intérpretes principais de "Les Yeux sans Visage".

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publicado 00:06 - 24 maio '12

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