Cartas da Guerra estreia no Festival de Berlim

Cinema Português  

"Cartas da Guerra" estreia no Festival de Berlim

O filme português baseado na experiência de António Lobo Antunes durante a guerra em Angola compete na secção principal.

As cartas de um médico recém-casado à esposa grávida que ficou em Portugal enquanto ele servia numa guerra fútil para manter Angola como colónia portuguesa inspiraram "Cartas da Guerra", filme exibido domingo no festival de cinema de Berlim.

As cartas foram escritas entre 1971-2 por António Lobo Antunes, que veio a tornar-se um dos maiores romancistas portugueses e traçam o crescente desespero de um homem apanhado num conflito onde consegue ver a ruína do seu próprio país e dos angolanos.

"Em 1971, toda a gente sabia que a guerra era injusta e sem qualquer prespectiva de sucesso", disse o realizador Ivo Ferreira na conferência de imprensa após a projeção do seu filme que se encontra em competição pelo troféu mais importante, o Urso de Ouro.

"Foi esta guerra que iniciou a queda da ditadura em Portugal", acrescentou Ferreira, referindo-se à chamada "Revolução dos Cravos" que, em 1974, pôs fim a mais de quatro décadas de governo autoritário.

O filme, onde Miguel Nunes desempenha o papel de Lobo Antunes, mostra como a camaradagem inicial entre as forças portuguesas recém-chegadas a Angola dá progressivamente lugar ao desespero e à desmoralização face a um inimigo quase sempre invisível que, mesmo assim, consegue infligir baixas através de minas terrestres e ataques furtivos.

Numa das cenas, os soldados portugueses vingam-se executando a sangue frio um grupo de rebeldes angolanos capturados. Outra, mostra um soldado louco a vaguear pela selva nú após deitar fora a sua chapa de identificação.

De acordo com o realizador, os soldados e oficiais que regressaram a casa acabaram por formar a espinha dorsal da revolução que tomou o nome das flores colocadas nos canos das armas por manifestantes.

"Esses oficiais e soldados deram início à revolução... foi essa a experiência do Dr. Lobo Antunes durante a guerra e foram eles os pais desta revolução", disse Ferreira.

A ideia de que as cartas fossem lidas pela voz da mulher do médico surgiu quando o realizador viu a sua própria mulher a ler um dos livros de Lobo Antunes

"É um dos aspetos fundamentais, sem ele o filme não existiria", afirmou.

A atriz Margarida Vila-Nova, que interpreta a mulher do médico, espera que o filme ajude os jovens portugueses a aprender sobre este período da história. "Sabemos muito pouco sobre o que aconteceu", afirmou, notando que os mais velhos raramente tocam no assunto. "Creio que este filme pode ser uma lição para os mais novos" disse na passadeira vermelha antes da estreia de "Cartas da Guerra" no certame alemão.

Também presente esteve o primeiro-ministro português. António Costa, afirmou estar muito orgulhoso pela exibição do filme em Berlim. "Não se trata apenas da primeira vez em muito tempo que apresentamos uma longa-metragem, é também a adaptação de uma das obras mais importantes da nossa literatura, escrita por um dos nossos autores contemporâneos", disse.

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