Caso raro: cinema português lidera box office nacional
"Balas & Bolinhos" repartiu com "Morangos Com Açúcar" uma rara liderança da produção portuguesa no box office nacional.

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Caso raro: cinema português lidera box office nacional

Nos debates sobre o cinema português existem algumas verdades essenciais que raramente são referidas.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Caso raro: cinema português lidera box office nacional
Morangos com Açúcar: O Filme É na loucura do Verão e ao som da música que o passado e o presente de “Morangos com Açúcar” se cruzam, numa aventura sem igual. Entre a praia e a piscina, o parque de campismo e o campo de férias, amigos de longa data reencontram-se e novas amizades acontecem. A alegria é geral e ninguém vai querer perder o grande festival de bandas que está prestes a acontecer. É num ambiente de grande festa ...
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Quem aterrasse recentemente no mercado cinematográfico português e olhasse para a tabela de box office, diria que a produção nacional está de excelente saúde.

Dois títulos assumidamente comerciais lideraram a tabela à frente de filmes norte-americanos e realizadores consagrados (ver artigo recomendado).

Em relação a este assunto, uns manterão o discurso contra o mau gosto, a dependência de formatos televisivos e a falta de cultura cinéfila dos portugueses. Outros apontarão o dedo à dependência dos subsídios estatais, aos artistas e intelectuais que filmam para o umbigo e para os festivais e ao dinheiro mal gasto dos contribuintes. São estes os dois campos em que se divide o panorama ideológico do cinema em Portugal. Infelizmente, omite-se sempre uma verdade tão básica e singela como importante: que em todas as cinematografias europeias saudáveis coexistem filmes de autor e longas-metragens de cariz comercial.

Tomemos o exemplo da França - país da União Europeia onde a produção local tem maior expressão.

Se olharmos para as produções francesas mais populares nos últimos três anos e para a posição que ocupam do ranking anual de box office daquele país observamos o seguinte:

2011 - "Untouchables" (Amigos Improváveis) #1 do ano; "Rien à Declarer" (Nada a Declarar) #2
2010 - "Les Petits Mouchoirs" (Pequenas Mentiras Entre Amigos) #2; "Camping 2" #8
2009 - "Le Petit Nicolas" (O Menino Nicolau) #4; "Arthur et la Vengeance de Maltazard" (Artur e a Vingança de Maltazard) #8

Claramente, nenhum entra no que podemos chamar de cinema de autor. Todos estão bem dentro do género dito comercial. E foram estes filmes que tornaram França no tal país europeu com maior quota de mercado para a produção local.

O mesmo se passa aqui ao lado, em Espanha:

2011 - "Torrente 4" #1 do ano
2010 - "Tres Metros Sobre el Cielo" #13
2009 - "Cela 211" #11

Também na Itália:

2011 - "Che Bella Giornata" #1 do ano; "Qualunquemente" #5; "Immaturi" #6; "Femmine Contro Maschi" #9
2010 - "Benvenuti al Sud"#2; "La Banda dei Babbi Natale" #4;
2009 - "Natale a Beverly Hills" #2

Até em mercados pequenos como a Dinamarca, ou a Finlândia, vemos cinema local no topo das tabelas anuais de box office. O que não vemos, em nenhum lado do mundo é o cinema de autor a garantir quotas de mercado relevantes para a produção local.

Consequência disso: um país que concentre recursos (sejam eles públicos ou privados) apenas no cinema de autor não obterá um retorno relevante em termos de público.

Atente-se que não existe nestes argumentos nenhuma má intenção contra o cinema mais experimental, mais íntimo, menos dado a cedências para agradar. A outra verdade essencial prende-se com o facto de que nenhuma cinematografia saudável vive apenas de produções comerciais. É no cinema de autor que se alargam horizontes, é nele que se experimentam linguagens e soluções, desafiam convenções e preconceitos e se faz crescer o cinema como arte. Independentemente do público que possa atrair, ou do retorno financeiro imediato.

Por fim, também é verdade que nenhum mercado europeu conseguiu, até agora, criar modelos de produção baseado apenas em capitais privados. Em todos eles existem sistemas de contribuição estatal para subsidiar o cinema. Nem os grandes estúdios de Hollywood recusam dinheiros públicos. Os incentivos fiscais, internos ou fora dos EUA, são uma maneira astuta de diminuir custos e usados avidamente pelas majors.

Se quisermos que o público português veja mais cinema nacional falta, portanto, diversidade. É vital deixar entrar novas ideias, melhorar a qualidade dos argumentos e renovar a forma de ver uma produção cinematográfica dominada por um maniqueísmo que há décadas a mantém refém.

A verdade é esta: precisamos de um ou outro "Morangos Com Açúcar" e "Balas e Bolinhos" ao longo do ano. Mas também precisamos de  uma segunda linha, para um público mais adulto e exigente. E de uma terceira linha sem compromissos, a tal que ganha prémios em festivais e confere prestígio à cinematografia nacional.

O que não devemos ter é o domínio de um certo tipo de cinema em detrimento de outro. Está mais do que provado que não resulta.

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publicado 16:22 - 14 setembro '12

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