Celebrando actores e actrizes
Lupita Nyong'o ("12 Anos Escravo"), melhor actriz secundária: um dos mais belos discursos de agradecimento

Oscar 2014  

Celebrando actores e actrizes

A 86ª cerimónia dos Oscars acabou por consagrar dois filmes — "12 Anos Escravo" e "Gravidade" — que condensam muito do momento histórico e industrial do cinema americano. No balanço global, os actores e as actrizes foram, de facto, as grandes vedetas.

Jim Carrey, numa das mais notáveis performances da noite nº 86 dos Oscars de Hollywood, antes de uma deliciosa imitação de Bruce Dern em "Nebraska", lembrou, com terno sarcasmo, que ser nomeado é uma complicação de compromissos, entrevistas e jantares... E que ele não tinha esse problema: Carrey é, aliás, um dos mais brilhantes actores da sua geração que nunca foi nomeado para uma estatueta dourada — nem mesmo por "The Truman Show/A Vida em Directo" (1998)... lembram-se?
 

Dir-se-ia que, indirectamente, Carrey pôs o dedo numa ferida que não sara. A saber: o estranho efeito de rotina que, independentemente do valor dos filmes, parece contaminar os Oscars desde que aumentou a mediatização dos muitos prémios que os antecedem (a começar, claro, pelos Globos de Ouro...). Mais do que isso: a normalização dos candidatos principais como aqueles que estreiam, "obrigatoriamente", no último trimestre de cada ano, deixando muito pouco espaço para os potenciais candidatos lançados nos meses antecedentes — a consagração, em 1992, de um filme como "O Silêncio dos Inocentes", mais de um ano depois da sua estreia (em Fevereiro de 1991) parece, hoje em dia, uma proeza inalcançável.

Dito isto, por mim, acrescentaria que não devemos ser mais papistas que o papa, reconhecendo que os Oscars continuam a possuir uma energia de espectáculo — com um belo "regresso" de Bette Midler! — que envolve também uma visão peculiar da dinâmica interna da própria indústria.

Assim, a vitória de um filme tão dramaticamente intenso e tão historicamente significativo como "12 Anos Escravo" mostra algo de muito básico, mas todos os dias esquecido ou mascarado pelo domínio promocional dos "blockbusters": a produção americana continua a ser atravessada por componentes humanas e políticas — e de uma política humanista — que não pode ser secundarizada. Steve McQueen disse-o, em palavras simples e contundentes, no final do seu discurso de agradecimento [video "The Telegraph"].


Daí a proeza paradoxal do filme de Alfonso Cuarón, "Gravidade", como se a sua odisseia no espaço tivesse ficado incompleta: por um lado, com os seus sete Oscars, é o principal vencedor "quantitativo" da noite; por outro lado, a distinção como melhor realizador, sem a de melhor filme, não pode deixar de envolver a sugestão de que os seus méritos como gestor de uma notável equipa técnica não arrastam o complementar reconhecimento do próprio filme.

Trata-se, de facto, de uma conjuntura pouco frequente que apela também à linguagem fria dos números (que, como diz o lugar-comum político, apenas "valem o que valem"). Assim, pela 23ª vez, e pelo segundo ano consecutivo, assistimos a uma não coincidência entre as categorias de melhor filme e melhor realizador — o ano passado, "Argo" venceu, tendo sido premiado o realizador de "A Vida de Pi", Ang Lee.

Além do mais, "Gravidade" consegue quase bater o recorde (?) do filme que ganhou mais Oscars sem ter sido distinguido na categoria de melhor do ano — tal título pertence a "Cabaret" (1972), vencedor de oito estatuetas douradas no ano em que "O Padrinho" foi escolhido como melhor filme (com um total de três Oscars).

Seja como for, a cerimónia deixa um saldo — também ele previsível, mas muito gratificante — que envolve não os filmes "mais" ou "menos" lucrativos, com mais ou menos "efeitos especiais", mas as pessoas de carne e osso. A saber: os actores e as actrizes. O discurso de Lupita Nyong'o — melhor secundária, por "12 Anos Escravo" — serve de exemplo admirável do envolvimento pessoal e político, carnal e espiritual, que o trabalho específico de representação pode suscitar.


Enfim, com Ellen DeGeneres, a Academia de Hollywood (re)encontrou uma profissional que sabe cumprir o misto de rigor e improvisação que a função de "host" requer. Fica por resolver um problema prático que é, talvez, nos tempos que correm, uma questão de fundo: o prolongamento da cerimónia por cerca de três horas e meia não favorece o seu impacto global, correndo o risco de agravar os problemas de fidelização de audiências que, com altos e baixos, têm marcados os últimos anos.

Dito de outro modo: a identidade do espectáculo dos Oscars do cinema passa, inevitavelmente, pela especificidade da sua concepção televisiva. Como diria o outro: "That's another story"... Ou talvez não.

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publicado 15:10 - 03 março '14

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