Christopher Nolan e o abandono do filme de 35mm
Christopher Nolan tem sido um dos realizadores mais interventivos na defesa da película em 35mm.

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Christopher Nolan e o abandono do filme de 35mm

A rápida passagem para o cinema digital poderá não ser apenas um mar de rosas. Alguns académicos e cineastas estão a levantar questões quanto ao abandono do tradicional formato de pelicula.

Já sabiamos do interesse dos estúdios em acelerar ao máximo a passagem dos 35mm para o digital e o entusiasmo de realizadores importantes como James Cameron e Peter Jackson tem sido fundamental na transição.

Cameron foi a chave do processo quando fez depender a exibição de "Avatar" da mudança para a nova tecnologia, mas nem toda a gente está de acordo quanto às maravilhas do digital.

Christopher Nolan, o realizador dos novos Batman e de "Inception - A Origem" tem sido a voz mais forte e conhecida a sair em defesa da tradição do filme.

Recentemente, convidou um grupo de realizadores de topo para verem os primeiros seis minutos de "O Renascer do Cavaleiro das Trevas". A ocasião serviu para mais do que o simples visionamento. Nolan, aproveitou a presença dos seus pares para mais uma vez alertar quanto à pressão exercida pelos estúdios para que toda a gente passe a filmar exclusivamente em digital e diga definitivamente adeus ao 35mm.

Em entrevista à revista do Directors Guild of America (a associação profissional de realizadores de cinema norte americanos), Christopher Nolan reafirmou o seu amor pela película e a descrença no 3D: "É mais barato trabalhar em película e o aspecto final é muito melhor, é uma tecnologia que tem vindo a ser conhecida e compreendida nos últimos cem anos e é extremamente confiável."

As razões de Nolan têm tido eco no mundo académico, nas cinematecas e pela voz de gente que gere cineclubes, ou pequenos cinemas mais virados para a reposição de clássicos do cinema. A rapida transição e o desaparecimento das cópias em 35mm significará o desaparecimento deste tipo de exibição, incapaz de suportar o investimento no novo material.

As cópias digitais - ou DCP, do inglês Digital Cinema Package - não são mais do que pequenas drives inseridas no servidor do equipamento de projeção. O seu custo e transporte é bastante menor que o de uma cópia normal em 35mm. Para além disso, garante a qualidade de reprodução ao longo de todo o período de exibição do filme, algo que antes não sucedia. Acabam-se assim os riscos e cortes que foram comuns durante os tempos da película.

Outra vantagem é a obrigatoriedade de trocar as lâmpadas de xenon que iluminam a projecção dentro dos prazos de tempo recomendados pelo fabricante de forma a evitar que o bolbo possa explodir dentro do equipamento. Antigamente, tal facto era relativamente comum quando os cinemas tentavam reduzir custos mantendo as lâmpadas até ao limite - com prejuízo natural para o espectador. Nos novos equipamentos, o rebentamento de uma lâmpada pode causar mais do que um susto - pode danificar seriamente o projector e forçar a reparações mais despendiosas.

E é precisamente aqui que começamos a entrar num campo em que a nova projecção digital começa a perder para a antiga forma de passar filmes.

Tradicionalmente, um projector analógico tradicional durava décadas. Quem conhece o mundo digital sabe a que velocidade os equipamentos e formatos de armazenamento ficam obsoletos.

Hoje, muitas salas usam equipamentos digitais 2K, mas já se sabe que o futuro será o 4K, uma espécie de HD ou Blu-ray da projecção em cinema com maior definição do que a atual normal da indústria. Nem é preciso dizer que a mudança irá custar muito dinheiro.

Outro ponto importante tem a ver com o armazenamento a longo prazo. Um estudo da Academia norte americana de cinema (a mesma que anualmente distribui os Oscars) citado num excelente artigo do LA Weekly refere que o custo de armazenagem de cópias digitais em 4k (a norma de maior qualidade do DCP) é 11 vezes superior ao de uma cópia em 35mm.

Depois: há os problemas técnicos: uma cópia em polyester de um filme a preto e branco (o material em que são feitas as cópias mais recentes em 35mm) mantida em boas condições, ou seja, num ambiente escuro, seco e fresco, pode durar até mil anos.

Os ficheiros digitais exigem outro tipo de cuidados: as drives não podem ser simplesmente deixadas num armazém anos a fio, e não se sabe ainda como os uns e zeros dos ficheiros se irão portar a longo prazo (a tecnologia em si leva umas quantas décadas de desvantagem em relação ao filme).

Um futuro sem película?

Toda a situação é ainda muito incipiente e há sempre uma tendência para pintar cenários negativos. Basta ler alguns artigos da altura em que o cinema passou a ter som.

A evolução constante da tecnologia é algo preocupante por não permitir estabilidade a quem investiu recentemente muitos milhares de euros em novo equipamento, mas será uma questão de tempo até se chegar a uma plataforma passível de ser mantida durante algumas décadas.

Também os custos terão tendência a diminuir à medida que a tecnologia estabilizar. O normal - olhando para outras tecnologias - será que, daqui por apenas uns anos, surjam projectores digitais a preços mais convidativos para cineclubes, ou pequenas associações de amantes do cinema.

Quanto ao fim da película, há um mistério ainda por resolver que talvez seja, no fim de contas, uma forma honrosa de manter o velho filme analógico: se for provado que o DCP naõ serve como formato de arquivo, é bem provável que o 35mm continue a existir, em longas filas de corredores frios e intermináveis, como recipiente onde repousa a herança da sétima arte.

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publicado 20:57 - 15 abril '12

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