Cinanima explora identidade sexual em filmes `queer` entre a poesia e o cómico-trágico

Festival  

Cinanima explora identidade sexual em filmes `queer` entre a poesia e o cómico-trágico

O festival de animação de Espinho começa a 7 de novembro.

O Cinanima - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, arranca segunda-feira com uma secção dedicada a filmes sobre a comunidade 'queer', em abordagens desde a realização poética à comédia trágica.

Intitulada "How Queerful!", a retrospetiva tem curadoria do realizador Cheng-Hsu Chung e reúne 12 curtas-metragens que este cineasta de Taiwan selecionou com o objetivo de divulgar o que define como "a criatividade 'queer' no campo da animação", para motivar no público "mais conversas sobre género, sexualidade, desejo, diversidade cultural e política racial".

Em entrevista à agência Lusa, o cineasta começa assim por revelar que cada um dos filmes que selecionou para o Cinanima aborda diferentes aspetos da vida da comunidade 'queer' e depois admite que esse é um dos assuntos que gostaria de ver tratado com mais frequência no cinema em geral.

"Espero ver mais histórias pessoais contadas e partilhadas no ecrã. Tópicos 'queer' ou relacionados com a sexualidade são como quaisquer outros temas de filmes e podemos expressá-los de forma única", explica Cheng-Hsu Chung.

Nesse contexto temático específico, a principal vantagem do cinema animado é que permite mais liberdade plástica sem o risco de excessiva exposição pessoal. "No meu caso, a animação permite-me usar visuais mais surreais para abordar a minha expressividade 'queer'. As palavras que tenho receio de dizer ou os comportamentos que sou demasiado tímido para adotar são transformados em desenhos ou colagens. Sinto-a como um abrigo em que posso confortavelmente ser eu mesmo", explica o realizador.

A retrospetiva "How Queerful!" inclui uma obra do próprio Cheng-Hsu Chung, que, na curta-metragem de cinco minutos "Adorable", relata a jornada de um indivíduo 'queer' ao explorar a sua sexualidade em fantasias fluidas e descobrir uma comunidade em que discriminação, liberdade e amor coexistem.

No mesmo espírito, também "I like girls", da canadiana Diane Obomsawin, "Turning", da sueca Linnéa Haviland, e "Birds of a Feather", do britânico Dan Parry, contam o que o festival anuncia como "histórias únicas em que as personagens mergulham nas aventuras de encontrar a sua identidade 'queer' enquanto são questionadas, questionam e aceitam".

Recorrendo a comédia, drama e narrativa experimental, essas 'curtas' propõem-se "discutir 'queerness'" para mostrar "que cada indivíduo tem uma forma própria de expressar a sua identidade" e é isso que acontece também na produção britânica "For the best", de Youyang Yu, que reflete sobre o desafio de um relacionamento íntimo ao expor um amor não-correspondido em "'frames' poéticos, desenhados à mão".

Outra obra incluída na mesma secção é o filme "Lotus Lantern", uma coprodução sino-americana de homenagem à falecida cantora Zhou Xuan e apontada pela organização do Cinanima como a materialização de "um elo perdido" entre a identidade 'queer' do realizador do filme, Xingpei 'Calvin' Shen, e a sua herança chinesa.

Seguem-se três obras com origens respetivamente em Singapura, no Canadá e numa parceria Canadá-Estónia, todas sobre ligações maternais e outras relações familiares.

A primeira é "Between us two", "uma carta honesta do realizador Tan Wei Keong à sua falecida mãe, expressando amor e tristeza com que muitos indivíduos 'queer' podem identificar-se"; a segunda é "Hi, It's Your Mother", com que Daniel Sterlin-Altman apresenta "uma comédia trágica que fala sobre problemas familiares profundos com diálogos de personagens alegres"; e a terceira é "Manivald", em que Chintis Lundgren analisa "o vínculo do ser humano ao criar incidentes com diferentes espécies sensuais de animais".

Depois do experimental e da ficção, a retrospetiva "How queerful!" integra ainda quatro curtas-metragens de animação em registo documental, uma das quais é "Récit de soi", da belga Géraldine Charpentier, que aí recorda "a descoberta da sua sexualidade, as lutas que surgiram no processo e como as representações importam para a comunidade".

Já o libanês Eli Jean Tahchi, radicado no Canadá, documenta em "Sometimes I wish I was on a desert Island" a situação de duplo isolamento a que foram sujeitas "pessoas LGBTQIA+ de língua árabe durante a pandemia de covid-19", quando à emigração motivada pela violência homofóbica se acrescentaram conflitos interculturais e intergeracionais no país de acolhimento.

Em "Modern Queer Heroes, por sua vez, a realizadora britânica Kate Jessop socorre-se de animação concebida por 14 artistas 'queer' de várias nacionalidades para, através de desenho sobre papel, recortes, marionetas, plasticina e efeitos informáticos 2D, compor um retrato dos heróis homossexuais da era moderna. Diz a direção do Cinanima que esse trabalho colaborativo foi desenvolvido durante a pandemia e resultou numa "celebração de personalidades LGBTQI+ que ajudou a impulsionar um pouco mais a cultura e a sociedade".

O Cinanima decorre de 7 a 13 de novembro.

por

Recomendamos: Veja mais Artigos de Festival