Cinema de terror, aliás, um novo romantismo
Imagem do capítulo inicial de "Titane": para lá do imaginário clássico do corpo

CANNES 2021  

Cinema de terror, aliás, um novo romantismo

Ficará, por certo, como o objecto inclassificável da secção competitiva do Festival de Cannes de 2021: "Titane", de Julia Ducournau, reiventa o género de terror... e vai mais além.

A melhor maneira de definir "Titane" será... não tentar defini-lo. Que dizer, de facto, de um filme que começa com uma jovem, ainda criança, a ter um acidente com o pai, sendo salva por uma placa de titânio colocada no seu cérebro? E como explicar que, alguns anos mais tarde, pelas suas veias corra, não o vermelho do sangue, mas um líquido oleoso? E porque é que esse ser tão singular, se transforma de Alexia em André?...

Dizer que esta segunda longa-metragem da francesa Julia Ducournau (estreou-se com "Grave", em 2016, uma história de... canibalismo) se inscreve no género de terror é, seguramente, uma banalidade. Mas corre o risco de se transformar numa imprecisão: "Titane" não pertence a nenhuma moda ou tendência, mesmo se, em qualquer caso, podemos especular sobre alguma influência do mestre canadiano David Cronenberg (que, aliás, Ducournau é a primeira a reconhecer).


Porquê Cronenberg? Porque é nele que somos convocados para a metódica decomposição do imaginário clássico (renascentista, em última instância) do corpo, ou melhor, da sua figuração. Tal como em "Crash" (1996), por exemplo, encontramos em "Titane" as marcas de um novo assombramento tecnológico: as vivências mais íntimas do corpo estão contaminadas pelas matérias das máquinas — máquinas desejantes, como alguém disse, ainda que noutro contexto. Será preciso acrescentar que tudo isso envolve uma interrogação drástica, de uma só vez angustiada e festiva, dos modelos da sexualidade que herdamos dos séculos XIX/XX?

Simplificando (e muito!), digamos que Cronenberg encena essa dinâmica como um reecontro com a tragédia. No caso de "Titane", talvez possamos considerar que deparamos com uma perversa ópera rock em que qualquer laço humano tradicional — a começar pela paternidade — perdeu a sua pertinência. Afinal de contas, logo no começo, escutamos The Kills em "Doing It to Death".

Resta dizer que, ainda assim, o amor não desapareceu: Ducournau é uma sacerdotiza de um novo romantismo, desencantado e desesperado... E só mesmo por distracção ou incauta inocência poderemos não reparar que, no cúmulo do surreal, é deste tempo que ela nos fala.

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publicado 00:58 - 16 julho '21

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