Cinema português: tristes sinas
"A Corte do Norte" de João Botelho, protagonizado por Ana Moreira

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Cinema português: tristes sinas

Os números dos dois últimos filmes portugueses estreados mantém a tendência infeliz de pouco interesse do público em relação ao cinema nacional. E já nem podemos apontar a culpa aos americanos ou dizer que o mesmo se passa no resto da Europa.

Na semana cinematográfica que ontem terminou estrearam dois filmes portugueses. "A Corte do Norte" de João Botelho e "100 Volta" de Daniel Sousa.

De um lado a adaptação de um romance de Agustina Bessa Luis dirigida por um realizador consagrado.

Do outro, uma produção semi-amadora de um estreante que pretende emular com poucos meios o cinema de acção norte-americano e seguir o caminho de outros projectos semelhantes como "Balas & Bolinhos".

Duas visões diametralmente opostas com resultados semelhantes. "100 Volta" teve 4.139 espectadores em sete dias. "A Corte do Norte" terá feito abaixo de 1.800 espectadores e nem sequer entrou na lista dos vinte mais vistos divulgada pelo ICA.

Entre 1 de Janeiro de 2008 e 18 de Março de 2009 só um filme produzido em Portugal ultrapassou os 100 mil espectadores: "Amália", de Carlos Coelho da Silva, com 210.408 bilhetes vendidos.

O segundo filme, "Second Life" está longe, com 88.146 espectadores. Os números do terceiro, "Contrato", descem para 44.951.

Como termo de comparação, o líder do box office em Portugal, "Marley e Eu", teve 62.400 espectadores só nos primeiros sete dias nas salas.

A reflexão sobre este tema é recorrente. Filmes comerciais versus cinema de autor, mais apoio do estado, menos apoio do estado. A culpa é do cinema americano ou do público pouco motivado, pouco cultivado ou pouco educado? Os argumentos repetem-se há anos e a situação não muda.

Recuperando as palavras de João Lopes na crítica a "A Corte do Norte":


"(...)os espaços de reflexão sobre cinema português estão muitas vezes contaminados por um velho (velhíssimo!!!) maniqueísmo: deveriam fazer-se "estes" ou "outros" filmes? Como se uma cinematografia fosse a aplicação de uma legislação linear... Como se a diversidade fosse suspeita..."


A diversidade pode e deve continuar a existir. O cinema de autor, o experimentalismo, a abertura a novas ideias e modos de encarar a sétima arte são inegociáveis e devem coexistir, tal como noutros lugares, com um cinema comercial competente que não temos. E não será repetindo fórmulas estafadas (sexo, acção de pacotilha, histórias a roçar a boçalidade) que lá chegaremos.

Nos meus tempos de director de marketing era hábito contarmos a história do antigo director-geral que dizia: "um spot de televisão para ser bom tem de ter mulher pelada e explosão". Era uma piada. Infelizmente, parece que alguns produtores nacionais a ouviram e a decidiram aplicar de forma literal, ad nauseam.

Quase nada se avançou desde os tempos de "Adão e Eva" ou "O Crime do Padre Amaro". As fórmulas repetem-se e o público recusa o mesmo produto apenas embalado de forma diferente.

Em quase toda a Europa as audiências das produções locais estão a aumentar, apesar do produto vindo dos Estados Unidos. Uma tendência que praticamente só não ocorre em Portugal e na Suíça.

Durante o último festival de cinema de Berlim, o Observatório Europeu para o Audiovisual divulgou números que nos deixam na cauda da lista no que diz respeito ao consumo de filmes produzidos internamente. Números que ilustram bem como é possível criar espaço para um cinema diferente e não falado em inglês.



QUOTA DE MERCADO DE FILMES DE PRODUÇÃO NACIONAL NA EUROPA ENTRE 2004 E 2008

(fonte: European Audiovisual Observatory)

Países 2004 2005 2006 2007 2008
Austria - 2,7% 2,6% 1,9% 6,0%
Alemanha 23,8% 17,1% 25,8% 18,9% 26,6%
Bélgica 6,3% 5,8% 6,5% 7,5% 10,0%
Bulgaria - - - 1,2% 4,8%
Dinamarca 23,7% 32,4% 24,8% 27,0% 33,0%
Espanha 13,4% 16,7% 15,5% 13,4% 14,2%
Estonia 5,4% 5,1% 9,2% 14,3% 7,3%
Finlândia 17,0% 15,0% 23,9% 20,0% 22,6%
França 38,4% 36,6% 44,6% 36,5% 45,7%
Holanda 9,2% 13,2% 11,3% 13,5% 17,8%
Hungria 10,3% 15,4% 18,7% 13,3% 10,2%
Itália 21,6% 25,7% 25,8% 32,0% 29,3%
Letónia 3,7% 1,8% 1,7% 7,4% 6,8%
Lituânia 2,9% 6,3% 1,1% 2,6% 5,5%
Polónia 8,7% 3,4% 15,9% 24,7% 25,4%
Portugal 1,3% 3,2% 2,7% 2,8% 2,5%
Reino Unido 23,4% 33,0% 19,1% 28,5% 31,0%
Rep. Checa 23,8% 25,1% 30,1% 35,2% 39,6%
Suécia 23,3% 22,6% 18,8% 21,6% 20,0%
Suíça 2,5% 5,9% 9,5% 5,1% 3,0%
Noruega 14,9% 14,0% 16,6% 17,2% 22,5%
Rússia 12,1% 29,7% 25,7% 26,3% 25,5%
Turquia 38,4% 41,8% 51,8% 38,0% 59,2%

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publicado 02:34 - 14 abril '09

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