Clássico de David Lynch recordado no LEFFEST
Kyle MacLachlan e Isabella Rossellini: a utopia já não é o que era

LEFFEST 2016  

Clássico de David Lynch recordado no LEFFEST

Um clássico e uma referência de culto: "Veludo Azul", de David Lynch, está a fazer nada mais nada menos que 30 anos — o LEFFEST assinala a efeméride com uma sessão especial.

Afinal de contas, quando Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan) regressa à sua cidadezinha da Carolina do Norte e encontra uma orelha humana (?) no meio da relva, que fantasmas o assombram? E que espécie de relação ele estabelece com a indecifrável Dorothy Valens (Isabella Rossellini), essa cantora de um nightclub que interpreta "Blue Velvet"?...


"Veludo Azul" é, por certo, um dos filmes de David Lynch em que uma muito peculiar beleza compulsiva mais se combina com o gosto perverso pela fábula amorosa. Trinta anos depois — é verdade, foi mesmo em 1986 —, o Lisbon & Estoril Film Festival celebra a data com uma sessão especial, em cópia restaurada.

Dizer que o trabalho de Lynch refaz regras e códigos de uma certa tradição do "thriller", mais ou menos contaminada pelo género de terror, será correcto, mas também insuficiente. Isto porque, no fundo, o cineasta de "Eraserhead" (1977) e "O Homem Elefante" (1980) nos envolve numa teia de narrativas capaz de desafiar os limites da própria identidade humana.

As personagens de Lynch, tanto as que estão do lado do "bem" como as que transportam o "mal", existem como espectros de uma história que lhes escapa. Por vezes, o impulso amoroso parece abrir-lhes uma paisagem mais ou menos redentora, mas acabam sempre por ter de lidar com a irracionalidade do factor humano — Lynch é um utopista sem utopia e "Veludo Azul" um dos seus trabalhos mais radicais e sofisticados.

* CCB, dia 12, 21h00

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publicado 02:23 - 12 novembro '16

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