Claude Lanzmann regressa às memórias do Holocausto
Claude Lanzmann e Benjamin Murmelstein, em 1975: à procura das memórias e das palavras para dizer

Cannes, dia 5: LE DERNIER DES INJUSTES  

Claude Lanzmann regressa às memórias do Holocausto

Cineasta sempre empenhado em tratar as memórias do Holocausto, Claude Lanzmann apresentou o seu novo e extraordinário filme: "Le Dernier des Injustes" revisita a história do campo de Theresienstadt.

Há situações em que não podemos, nem devemos, poupar a intensidade das palavras. Esta é uma delas: se mais razões não houvesse para que o 66. Festival de Cannes ficasse na história, a passagem de "Le Dernier des Injustes", de Claude Lanzmann (seleção oficial, extra-competição), bastaria para que tal acontecesse.

Estamos, de facto, perante a continuação de um trabalho monumental: autor do extraordinário "Shoah" (1985), Lanzmann continua a percorrer a história do Holocausto, inventariando nomes, lugares e ocorrências que não deixem dissipar-se as memórias da Solução Final programada pelos Nazis, visando o aniquilamento dos judeus.

"Le Dernier des Injustes" é, precisamente, um filme que começa no longo período de rodagem de "Shoah", mais precisamente na conversa que Lanzmann registou com Benjamin Murmelstein, em 1975. Murmelstein foi o derradeiro dirigente ("deao") do Conselho Judeu de Theresienstadt. Situado na antiga Checoslováquia, Theresienstadt surgiu como um campo mais "ligeiro" criado pelos Nazis, tentando fazer passar para o exterior a imagem de que os judeus estavam a ser pacificamente integrados nas suas "comunidades".

Na verdade, Theresienstadt foi uma impostura global, não só porque funcionou como mais um ghetto de onde não se podia sair, mas sobretudo porque lá se verificaram muitos assassinatos, em ambiente de crescente degradação do quotidiano. É disso que falam Murmelstein e Lanzmann, num diálogo que permanecerá inédito, uma vez que o realizador optou por não o incluir na montagem final de "Shoah". Em contraponto, o próprio Lanzmann refaz o percurso dos prisioneiros de Theresienstadt, numa viagem que elabora o metódico inventário de memórias perturbantes que importa preservar.

"Le Dernier des Injustes" é um exemplo admirável de um sentido humanista do olhar cinematográfico que, afinal, não depende exatamente da mera acumulação de documentos audiovisuais. Aquilo que Lanzmann faz consiste em convocar as palavras, as menos óbvias e as mais difíceis, para que a história seja dita, num processo de conhecimento que é também, sempre, uma exaltação da resistência humana. 

 

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publicado 13:00 - 20 maio '13

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