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Clint Eastwood: clássico e minimalista

Decididamente, é preciso ver para além dos Oscars para conhecermos todos os fulgores do melhor cinema americano: "Correio de Droga", de e com Clint Eastwood, é desde já um dos acontecimentos maiores do ano cinematográfico.

Clint Eastwood: clássico e minimalista
Clint Eastwood — actor, realizador, retratista da América profunda
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 Clint Eastwood: clássico e minimalista
Correio de Droga Earl Stone é um octogenário que se encontra falido e sozinho. Na sequência do processo de falência da sua empresa, propõem-lhe um trabalho que lhe exige simplesmente que conduza. Parece uma tarefa fácil, mas sem que se aperceba, Earl vê-se contratado por um cartel de droga mexicano. Graças à sua eficiência, aumentam-lhe o carregamento e põem-no ao serviço de um traficante. No entanto, este não é ...

Em 1992, perante a estreia de "Unforgiven/Imperdoável" (que viria a ganhar quatro Oscars, incluindo o de melhor filme do ano), houve quem se mostrasse surpreendido pelo facto de Clint Eastwood também... realizar filmes. Desconhecimento? Indiferença? Enfim, evitemos os rótulos apressados e recordemos apenas que, de facto, Eastwood tinha começado a dirigir filmes em 1971, com "Destinos nas Trevas" — "Imperdoável" era a sua 16ª longa-metragem.

E aí está a 37ª: "Correio de Droga" (título original: "The Mule"), narrativa fascinante que retraça a experiência verídica de um homem de 90 anos que, perante o efeito devastador da crise económica na sua pequena empresa de cultivo de flores exóticas, se envolve no transporte de cocaína, ao serviço de um cartel mexicano (argumento de Nick Schenk baseado num artigo de "The New York Times").

Dizer que Eastwood volta a encontrar o equilíbrio exemplar entre a austeridade clássica da realização e o prodigioso minimalismo da sua interpretação é necessário, mas não suficiente, para sugerirmos a subtileza de "Correio de Droga". Tal como nos seus filmes maiores (lembremos o caso paradigmático de "Mystic River", 2003), ele é um retratista da América profunda, lendo as convulsões colectivas através dos mais ínfimos detalhes dos destinos individuais.

Nesta perspectiva, pode dizer-se que, em contexto dominado pelas imagens de marca de "super-heróis" e afins, Eastwood insiste em manter Hollywood ligado a uma tradição dramática que rejeita as formas correntes de naturalismo (televisivo). "Correio de Droga" é mesmo um herdeiro directo de modelos de drama e melodrama, tragédia íntima e saga familiar, cultivados, por exemplo, por Vincente Minnelli em títulos como "Paixões sem Freio" (1955) ou "A Herança da Carne" (1960).

Não há muitos filmes americanos contemporâneos capazes de nos dar a ver esta América interior, fechada e esquecida, de modo tão contundente — sem que isso o impeça, entenda-se, de ser um objecto marcado por um visceral amor pelo seu país. Que "Correio de Droga" não esteja sequer citado na temporada de prémios (nomeações para os Oscars: zero), eis uma realidade brutal que expõe uma cegueira mercantil que começa, e se amplia, através das rotinas mais medíocres do marketing.

Crítica de João Lopes
publicado 22:35 - 01 fevereiro '19

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