Como se fosse uma ópera
China, séc. IX — a história revista muito para além do género histórico

Cannes 2015  

Como se fosse uma ópera

O cineasta de Taiwan Hou Hsiao-Hsien aborda os conflitos do séc. IX, na China, a partir da personagem de uma jovem mulher especialista em artes marciais — um notável fresco histórico que, afinal, supera as convenções do género histórico.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Como se fosse uma ópera
Assassina Durante a dinastia Tang (618 a 907 a.c.) uma assassina é colocada perante um dilema quando se apaixona por um homem que deveria matar.

A definição de filme histórico é, mais do que nunca, plural e instável. Para nos ficarmos por uma comparação muito básica, mas sugestiva, digamos que a abordagem da história num filme como "Cartas de Iwo Jima" (2006), de Clint Eastwood, pouco ou nada tem a ver com a evocação do passado que encontramos em "The Assassin", filme de Hou Hsiao-Hsien apresentado na competição de Cannes, em representação de Taiwan.

Trata-se, como é óbvio, de abordar um tempo de muitas e enigmáticas especificidades. Assim, tudo acontece em torno de Nie Yinniang (Shu Qi), cuja especialização nas artes marciais lhe confere a vocação de combater as forças da tirania da China do séc. IX — é mesmo convocada para assassinar o seu primo, Tian Ji'an (Chang Chen), governador da província dissidente de Weibo...

Que faz, então, a diferença de Hou Hsiao-Hsien? Primeiro que tudo, o facto de os tempos da sua narrativa não corresponderem a arranjos convencionais de "acção" e "reacção" — a teia temporal é contemplativa, mas está sempre ameaçada pela possibilidade de rupturas mais ou menos violentas. Depois, tudo acontece num sistema de representação que, à falta de melhor, apetece classificar como uma derivação do artifício e da grandiosidade da ópera.

Estamos, afinal, perante um cinema que existe a partir de um modelo que resiste à sua dissolução em qualquer género. Hou Hsiao-Hsien cria pinturas animadas em que a excelência do tratamento de luz e cores concorre para a sensação de que a história é, de uma só vez, um lugar de definição das personagens e da sua perdição — foi um dos momentos mais belos, e também mais inclassificáveis, do festival.

por
publicado 23:23 - 22 maio '15

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cannes 2015