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Confusão no Expresso do Oriente

Foi em 1974 que Sidney Lumet assinou uma sofisticada adaptação do romance "Um Crime no Expresso do Oriente", de Agatha Christie; agora, Kenneth Branagh tem um elenco de muitos talentos, mas não uma perspectiva narrativa nem uma visão dramática.

Confusão no Expresso do Oriente
Kenneth Branagh em pose de Hercule Poirot: como (re)encenar Agatha Christie?
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 Confusão no Expresso do Oriente
Um Crime no Expresso do Oriente O que começa como uma luxuosa viagem de comboio pela Europa rapidamente se torna num dos mais elegantes e emocionantes mistérios alguma vez contado. Baseado no best-seller de Agatha Christie, "Um Crime no Expresso do Oriente" conta a história de treze estranhos presos num comboio e onde todos são suspeitos. Um homem a correr contra o tempo para resolver o enigma antes que o assassino ataque ...

Lembram-se de "Um Crime no Expresso do Oriente", realizado em 1974 por Sidney Lumet? Para além da sofisticação da mise en scène, nele encontrávamos um elenco de luxo, com Albert Finney no papel de Hercule Poirot, integrando ainda, por exemplo, Sean Connery, Lauren Bacall e Ingrid Bergman (premiada com o Oscar de melhor actriz secundária). Será que, mais de quatro décadas depois, Kenneth Branagh acreditou que tudo se resolve com os nomes do elenco?

Nomes não faltam, de facto, a esta nova versão de "Um Crime no Expresso do Oriente". O próprio Branagh, desde logo, assumindo a figura de Poirot, exibindo um bigode de todos os excessos, afinal revelador de uma pompa sem circunstância... Depois, encontramos ainda, por exemplo, Michelle Pfeiffer, Johnny Depp, Judi Dench, Daisy Ridley e Derek Jacobi. Mas que fazem tão ilustres figuras no meio de uma confusão dramática que nem sequer sabe manter alguma fidelidade ao tão reconhecido suspense do romance original?

Que define, afinal, o universo narrativo de Agatha Christie? Muitos detalhes, sem dúvida, incluindo a atenção às diferenças sociais e respectivas nuances psicológicas. Em termos gerais, podemos acrescentar: uma sábia construção de sugestões, certezas e incertezas, que dispensa a acumulação de momentos "grandiosos", porventura cinematograficamente garantidos pelos efeitos especiais.

Branagh tem mesmo ao seu serviço uma máquina de produção que lhe permite encenar uma espectacular (?) avalancha de neve... O certo é que nem sequer consegue conferir ao seu comboio a componente de claustrofobia (física e moral) inerente a toda esta história. Seria óptimo que as "adaptações-de-Agatha-Christie" voltassem a ser uma componente viva do mercado, mas é duvidoso que com variações tão simplistas tal seja possível.

Crítica de João Lopes
publicado 23:19 - 10 novembro '17

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