Contra a miséria televisiva
Sob o signo do "Big Brother": um filme italiano sobre os poderes da "reality TV"

Cannes 2012  

Contra a miséria televisiva

Cineasta que conhecemos através de "Gomorra", o italiano Matteo Garrone surge, agora, com uma magnífica comédia: chama-se "Reality" e tem como objecto o populismo televisivo, em particular o mundo implacável do "Big Brother".

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Contra a miséria televisiva
Ganha o dvd "Reality" É a história de Luciano, napolitano, e da sua família que um dia o convence a concorrer ao Big Brother. E de como o perseguir de um sonho tolda a sua percepção da realidade.
Média Cinemax:
3.625

Felizmente, a mediocridade televisiva, com todo o rol de misérias que espalha nas audiências, ainda não anulou a vontade, o desejo e a mais básica inteligência de muitos sectores da(s) sociedade(s) europeia(s). No cinema italiano, por exemplo, há sinais estimulantes de resistência.

"Reality", de Matteo Garrone (nosso conhecido através de "Gomorra"), é um desses sinais. Presente na competição de Cannes, o filme de Garrone tem um título que remete para a noção de reality TV, mais precisamente para o programa "Big Brother". No seu centro está um homem de Nápoles (Aniello Arena, prémio de melhor interpretação masculina?...), dono de uma peixaria, que concorre a um casting para o "Big Brother". E antes mesmo de saber o resultado, a sua vida muda por completo.

Estamos no domínio da grande comédia social italiana, à maneira de muitos filmes (sobretudo das décadas de 1950/70), protagonizados por actores inesquecíveis como Toto, Ugo Tognazzi, Nino Manfredi ou Vittorio Gassman. Por um lado, há uma visão implacável da degradação dos laços sociais; por outro lado, isso nunca impede uma saldo de simpatia, ternura mesmo, pelas personagens e, afinal, pela sua imensa vulnerabilidade.

Um dos aspectos mais fortes de "Reality" resulta da sua aposta em encenar, antes de tudo o mais, o simples facto de o protagonista ser um candidato ao "Big Brother": essa hipótese afecta, das formas mais insólitas e agressivas, as suas próprias vivências familiares e sociais. Dito de outro modo: este é um filme sobre a reality TV como um dispositivo que toma o poder sobre as pessoas, e respectivas relações, reduzindo-as a peões incautos de um formato e, mais do que isso, de uma visão grosseiramente pitoresca da existência de cada ser humano.

Que tudo isto venha da produção de Itália, eis um sinal que importa sublinhar. De facto, o cinema italiano, uma das grandes referências da história europeia do cinema, sofreu imenso (desde a estética às finanças) com o triunfo de uma televisão populista. Um filme como "Reality" devolve a questão à origem, ajudando a ver o mundo para além dos estereótipos televisivos.

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publicado 00:13 - 19 maio '12

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