Crenças, ideologias made in USA
Jason Clarke e Riley Keough em "Sempre o Diabo" — grande elenco, filme admirável

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Crenças, ideologias "made in USA"

É um dos grandes acontecimentos do mais recente cinema americano: "Sempre o Diabo", de Antonio Campos, percorre temas e fantasmas enquistados entre a Segunda Guerra Mundial e o envolvimento dos EUA no Vietname.

Eis um paradoxo dos nossos dias: porventura incómodo e perturbante, mas cristalino. Em tempos de fundamental celebração do retorno às salas, alguns dos títulos marcantes da actualidade... não estão nas salas. Dito de outro modo: uma parte importante da actualidade cinematográfica está também nas plataformas de streaming.

Sublinhemos, por isso, o aparecimento de "Sempre o Diabo" [Netflix], nova proeza daquele que continua a ser um símbolo fundamental do cinema americano de espírito independente: Antonio Campos, cineasta de filmes tão invulgares e fascinantes como "Depois das Aulas" (2008) e "Christine" (2016).

De ascendência brasileira, Campos é, de facto, alguém que arrisca olhar temas e fantasmas de uma América enredada no labirinto das suas crenças e ideologias. Neste caso, estamos perante a adaptação do romance "The Devil All the Time", de Donald Ray Pollock, numa narrativa que cruza as atribulações de várias gerações marcadas pelos traumas da guerra do Vietname e, antes disso, pela herança cruel da Segunda Guerra Mundial.

Com elenco de fascinante diversidade — Tom Holland, Robert Pattinson, Bill Skarsgård, Riley Keough, Mira Wasikowska, Haley Bennett, Jason Clarke, etc. —, este é um exemplo modelar de um cinema que não perdeu o gosto clássico das sagas familiares que se vão transfigurando em verdadeiras parábolas históricas. Um dia, até por causa da sua espantosa utilização do formato largo (scope), talvez o mostrem numa sala escura...

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publicado 23:47 - 20 setembro '20

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