Crianças & adultos
Mads Mikkelsen em "A Caça": uma visão muito céptica das relações humanas

Cannes 2012  

Crianças & adultos

O dinamarquês Thomas Vinterberg continua a desmontar as relações humanas. Em "A Caça", presente na competição de Cannes, o pretexto é a história de uma criança e do alegado abuso a que foi sujeita por um professor.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Crianças & adultos
A Caça Na sequência de um divórcio difícil, Lucas tem uma nova namorada, um novo emprego e está em processo de reconciliação com o filho adolescente. Mas as coisas podem não dar certo. Basta uma observação passageira, uma mentira aleatória. E como a neve cai e as luzes de Natal são acesas, a mentira também se espalha como um vírus. O choque e desconfiança ficam fora de controlo e a pequena comunidade em ...
Média Cinemax:
3.5

Como sempre, um grande festival de cinema surge marcado/atravessado por temas que, da sociologia à política, fazem a actualidade do nosso mundo.

Através de "A Caça", do dinamarquês Thomas Vinterberg (realizador de "A Festa", 1998), Cannes trouxe-nos um desses temas. A saber: o abuso sexual das crianças pelos adultos. E conseguiu fazê-lo sem cair nas formas de especulação mais ou menos sensacionalista tantas vezes favorecidas pelos "debates" televisivos.

Em boa verdade, "A Caça" desenvolve-se como um típico enigma policial: será que Lucas (Mads Mikkelsen), professor de uma escola infantil, teve um comportamento obsceno com uma das meninas da escola, precisamente a filha de um dos seus melhores amigos?

Mas a dimensão policial da intriga (em boa verdade, esclarecida relativamente cedo no desenvolvimento do filme) torna-se secundária a partir do momento em que Vinterberg privilegia os ecos da própria situação. Dito de outro modo: "A Caça" é menos sobre o tema do abuso sexual e mais sobre a sua ampliação no sistema de relações (sociais e familiares) em que as personagens estão inseridas.

Apoiado num elaborado sentido do espaço e também numa excelente direcção de actores, o trabalho de Vinterberg renova, afinal, algumas componentes de "A Festa", a começar por um extremo cepticismo face ao factor humano. Para além dos valores e rituais das comunidades (sendo, aqui, a caça na floresta entendida como um mecanismo de transferência simbólica entre gerações), Vinterberg depara com a hipocrisia visceral do género humano. Decididamente, na sua admirável contundência, este é o contrário de um filme gratificante.

por
publicado 00:04 - 21 maio '12

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cannes 2012