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Da história à mitologia

Em "Undine", o cineasta alemão Christian Petzold aposta num conto mitológico, distanciando-se dos seus filmes mais classicamente históricos — é duvidoso que a opção traga algo de novo e consistente à sua trajectória criativa.

Da história à mitologia
Paula Beer em "Undine": à procura de uma personagem...
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 Da história à mitologia
Undine “Se me abandonares, vou ter de te matar”, diz a protagonista ao homem por quem está apaixonada quando eles se separam no café da esquina. Mergulhando no reino subtil do sobrenatural, Christian Petzold re-imagina a figura mitológica da ninfa aquática, Ondina, que se torna humana quando se apaixona e morre quando o seu amado a trai, transportando-a para uma história de amor do século XXI. Aqui, ...

Há uma sensibilidade moderna que se enraiza na releitura e reinvenção de narrativas clássicas; para nos ficarmos por um exemplo sugestivo, lembremos o trabalho de Jason Reitman em Hollywood (através de filmes tão singulares como "Juno", "Nas Nuvens" ou "Tully"). E há um "modernismo" algo decorativo que confunde essa possibilidade de reinvenção com a acumulação de referências "culturais".

"Undine", do alemão Christian Petzold, é um exemplo dessa segunda vertente. Dir-se-ia que o filme apenas pede ao seu espectador que venha munido da "chave" mitológica que permite decifrá-lo... Que é como quem diz: Undine é uma variante da ninfa aquática (Ondina) que se torna humana quando se apaixona e morre quando o amante a atraiçoa...

Claro que Petzold possui as qualidades de quem sabe o valor do espaço e do tempo — a cena de abertura, no café, é nesse aspecto, pelo menos, um exemplo de competência. O certo é que a inserção da acção em Berlim dos nossos dias (sublinhada pelo facto de Undine ser uma especialista em desenvolvimento urbano), ainda que sugestiva, parece reduzir-se a um esquematismo "simbólico" susceptível de gerar algum contraste "revelador" com os cenários mitológicos.

Paula Beer e Franz Rogowski, respectivamente como a "ninfa" moderna e o seu amante, são obviamente actores muito sólidos, mas vagueiam na indefinição das personagens. Os resultados são tanto mais desconcertantes quanto Petzold já tinha dado provas de outro rigor e densidade em filmes clássicos e "históricos", sem derivações abstractas, como "Barbara" (2012) ou "Phoenix" (2014).

Crítica de João Lopes
publicado 00:33 - 21 abril '21

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