Dançando em 1948
Moira Shearer, em "Os Sapatos Vermelhos", ou o grande classicismo made in Britain

Memória  

Dançando em 1948

O bailado de "Cisne Negro" pode justificar a evocação do bailado de "Os Sapatos Vermelhos": vale a pena recuar mais de 60 anos...

"Cisne Negro", de Darren Aronovsky, é um filme que possui o mérito de dividir os seus espectadores. Há de tudo, desde os entusiastas (a maioria) aos mais cépticos (nos quais me incluo). Tendo em conta o estado da blogosfera "cinéfila", o mais provável é isso servir apenas para mais uma colecção de insultos...

Nem que seja por simples amor da diversidade, podemos e devemos lembrar que, ao longo das décadas, cinema & bailado têm-se cruzado de modos muito variados, por assim dizer contaminando-se com os seus temas e estéticas.

Uma das memórias que, nesta ocasião, vale a pena convocar tem data de 1948 e assinatura de Michael Powell/Emeric Pressburger, dupla genial do classicismo britânico: "Os Sapatos Vermelhos", com Moira Shearer e Anton Valbrook, é um exemplo exuberante de um cinema cuja energia espectacular procurava, de facto, algo maior que a vida.

Em "Os Sapatos Vermelhos", o bailado emerge como um sinal dessa ambivalência em que o cinema tanto gosta de se mover: próximo da carnalidade dos corpos e, ao mesmo tempo, tendendo para um delírio formal que liberta o filme para além de qualquer dependência naturalista.

Além do mais, Powell/Pressburger (e não apenas neste filme) são também um caso exemplar de uma sofisticação de produção que desmente a ideia simplista segundo a qual todas as vanguardas técnicas estão nos EUA.

Não que os americanos, ontem como hoje, sejam alheios a grandes e maravilhosos objectos de entertainment. Em todo o caso, já é tempo de não ignorarmos a pluralidade — técnica, temática e artística — do cinema europeu. Hoje em dia, essa é uma fundamental questão cultural e jornalística.

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publicado 05:37 - 03 fevereiro '11

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