Este não é Seth MacFarlane...
Bob Hope: memórias de outros Oscars (e outros apresentadores)

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Este não é Seth MacFarlane...

O anúncio do criador da série "Family Guy" como apresentador dos próximos Oscars foi, no mínimo, desconcertante. Afinal de contas, para onde foi a tradição do "glamour"? Hollywood já só se pensa através... da televisão?

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Seth MacFarlane vai apresentar os Oscars Academia de Hollywood escolhe criador de "Family Guy" e "American Dad" para anfitrião da 85ª cerimónia dos Oscars.

A notícia caiu, não exactamente como uma bomba, mas... em saco roto: Seth MacFarlane vai apresentar a 85ª cerimónia dos Oscars, no dia 24 de Fevereiro de 2013.

Não creio que seja preciso encomendar uma grande e sofisticada sondagem para deduzir que uma grande maioria dos espectadores regulares de cinema terá perguntado: "Quem?..."

E peço que não interpretem mal a ironia. Como é óbvio, não está em causa o talento já afirmado por MacFarlane e até a importância histórica da sua contribuição para o audiovisual americano. Estamos a falar, afinal, de um artista multifacetado, criador da popular série de animação "Family Guy" e argumentista/realizador/produtor de "Ted", a comédia em que Mark Wahlberg partilha as suas angústias com o emblemático urso de peluche da sua infância (aliás, no seu anúncio oficial, a Academia de Hollywood não deixa de celebrar essas provas dadas por MacFarlane).

Resta saber o que está a acontecer para que, depois do regresso "50/50" de Billy Crystal, em 2012, a Academia continue a acreditar que a melhor maneira de aumentar a audiência televisiva é secundarizar o potencial histórico de glamour do próprio cinema?

Sim, porque quando pensamos nos grandes apresentadores clássicos dos Oscars, a começar por Bob Hope (que, além do mais, teve a seu cargo a condução da primeira cerimónia transmitida pela televisão, via NBC, em 1953), o que resistiu ao tempo está para além do pitoresco: é essa ideia de Hollywood como uma entidade dedicada ao espectáculo, celebrando as suas estrelas, envolvendo o factual e o onírico, enfim, uma paisagem maior que a vida.

MacFarlane poderá até revelar dotes apuradíssimos para a função (e escusado será dizer que será muito bem preparado para a executar). O certo é que, antes mesmo de pisar o palco do Dolby Theater, transportará um défice difícil de superar: o de, neste contexto, não ser uma emanação da mitologia cinematográfica, mas um peão de uma lógica televisiva. Desejamos-lhe, claro, a melhor sorte.

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publicado 02:20 - 04 outubro '12

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