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Edward Kennedy, história e tragédia

Foi no Verão de 1969 que o senador Edward Kennedy protagonizou um acidente de automóvel que iria alterar toda a sua vida familiar e política — "O Segredo dos Kennedy" evoca esse momento trágico de forma especialmente sugestiva.

Edward Kennedy, história e tragédia
Jason Clarke e Kate Mara — memórias trágicas de finais da década de 1960
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A lista de filmes americanos sobre o clã Kennedy constitui um espelho, necessariamente multifacetado e contraditório, da própria América — bastará recordar o caso exemplar de "JFK" (1991), através do qual Oliver Stone revisitou as memórias do assassinato de John F. Kennedy para discutir, justamente, as hipóteses de a sua morte ter resultado, não do acto de um atirador isolado, mas de uma conspiração.

"O Segredo dos Kennedy", de John Curran, é mais um filme a acrescentar a essa lista. Num certo sentido, trata-se de um título marginal, uma vez que coloca em cena Edward Kennedy (1932-2209), por certo o "menos" mitológico dos irmãos. Trata-se de encenar um momento crítico na sua vida pessoal e política, momento evocado no título original, "Chappaquiddick" — foi nessa ilha paradisíaca de Martha's Vineyard que, no Verão de 1969, o carro de Kennedy se despistou numa ponte, tendo morrido a sua acompanhante, Mary Jo Kopechne, uma das jovens que trabalhavam na preparação da sua campanha para as presidenciais de 1972.


Podia ser um daqueles filmes de "reconstituição" histórica que encaram o passado, próximo ou distante, através de uma banal acumulação de peripécias, cenários e "efeitos" de época. Claro que os sinais daquele contexto — incluindo a chegada dos homens à Lua — pontuam todas as situações do filme, mas não são um fim em si mesmo. No limite, Curran encena a inadequação de Edward Kennedy ao seu próprio papel político e mediático, ele que, em última instância, não teria vontade de ser Presidente dos EUA.

Jason Clarke é especialmente subtil e enigmático na representação do vazio que parece asfixiar o protagonista (Edward Kennedy só deu conta do acidente à polícia dez horas depois de ter ocorrido...) — vimo-lo, por exemplo, em "Mudbound - As Lamas do Mississipi", de Dee Rees. Destaque também para Kate Mara, no papel de Kopechne, expondo a vulnerabilidade de alguém que, afinal, com a sua morte, adquiriu um lugar trágico na atribulada história da década de 60 nos EUA.

Crítica de João Lopes actualizado às 23:13 - 06 junho '18
publicado 23:09 - 06 junho '18

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