Estreias  

Elogio do classicismo de Hollywood

Eis um desafio invulgar: adaptar um admirável romance de Philip Roth, percorrendo as convulsões da década de 1960 — "Uma História Americana" é a brilhante estreia na realização do actor Ewan McGregor.

Elogio do classicismo de Hollywood
Ewan McGregor estreia-se na realização adaptando um romance de Philip Roth
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Elogio do classicismo de Hollywood
Uma História Americana Baseado no romance do aclamado autor Philip Roth, vencedor do Prémio Pulitzer, acompanha uma família Americana durante várias décadas, quando a sua existência idílica é estilhaçada pela turbulência social e política que irá mudar para sempre a estrutura da cultura Americana. Ewan McGregor (A Pesca do Salmão no Iémen; Assim é o Amor) faz a sua estreia na realização, interpretando Seymour “Swede” ...

É sempre gratificante deparar com um filme que, em vez de tentar exibir uma modernidade de efeitos postiços, saiba exprimir-se no depurado respeito do mais sóbrio classicismo"Uma História Americana" é um desses filmes, tanto mais tocante e envolvente quanto sabe preservar a teia temática e a densidade emocional do romance de Philip Roth em que se baseia (entre nós editado, com chancela da Dom Quixote, com o título que traduz o original: "Pastoral Americana").

Trata-se, então, de encenar as convulsões de uma família exemplar, "condenada" a ser feliz na América dos atribulados anos 60, com os traumas da guerra do Vietname em fundo. O casal Levov — ele dirigindo uma próspera fábrica de luvas, ela eternamente olhada como aquela que, na juventude, venceu um concurso de beleza — é esse núcleo de harmonia que se descobre violentamente abalado pelos desvios que a sua filha, envolvida nos protestos políticos da época, vai protagonizar...

Ewan McGregor estreia-se, aqui, na realização, assumindo também o papel do pai. E o menos que se pode dizer é que se trata de um duplo desafio que ele vence com inusitada sofisticação, para mais contracenando com a brilhante Jennifer Connely, no papel da mãe. Com Dakota Johnson a representar a personagem da filha, este é, afinal, um filme de celebração dos actores, da sua dimensão humana

À sua maneira, "Uma História Americana" revela-se um objecto duplamente corajoso: em primeiro lugar, pelo modo como percorre as convulsões de uma década em que os tradicionais equilíbrios sociais e familiares foram drasticamente postos em causa; depois, pela fidelidade a uma matriz narrativa que privilegia a irredutibilidade das personagens, nunca as esgotando em banais "símbolos" históricos. Ou seja: uma das melhores supresas deste final de 2016.

Crítica de João Lopes
publicado 23:53 - 18 novembro '16

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes