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Em torno de uma relíquia arqueológica

"The Dig / A Grande Escavação" recorda um episódio marcante da história da arqueologia em Inglaterra, num registo dramático, recheado de curiosos elementos realistas, mas limitado pelas opções de "casting".

Em torno de uma relíquia arqueológica
Carey Mulligan e Ralph Fiennes: revisitando a história da arqueologia em 1939
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Um fenómeno curioso na actual multiplicação de títulos nas plataformas de streaming é o facto de a concorrência (incluindo, claro, a vontade de ter um catálogo tão extenso quanto possível) estar a favorecer o aparecimento de obras que, muito provavelmente, seriam rejeitadas pelas rotinas dos estúdios tradicionais.

"The Dig / A Grande Escavação", realizado por Simon Stone, produzido pela Netflix, é um revelador exemplo, desde logo pela especificidade do seu tema, inspirado em factos verídicos. A saber: a descoberta, em 1939, de uma relíquia arqueológica — um barco de origem anglo-saxónica, século VII — numa propriedade de Sutton Hoo, na zona de Suffolk, na zona leste de Inglaterra.


As personagens centrais são Edith Pretty, a proprietária, e Basil Brown, um arqueólogo "amador" não muito bem visto pelas autoridades oficiais do British Museum. E se é verdade que os papéis são desempenhados pelos muito competentes Carey Mulligan e Ralph Fiennes, não é menos verdade que no caso de Mulligan surge um obstáculo intransponível: querendo dar evidência à precária condição de saúde de Pretty, na altura com 56 anos (viria a falecer três anos mais tarde), o filme "força" Mulligan a uma postura física e dramática que os seus 35 anos não conseguem sustentar.

O filme, aliás, apresenta diversos problemas estruturais, incluindo a introdução tardia do par interpretado por Lily James e Ben Chaplin, de algum modo secundarizando Edith e Basil e quebrando o fio condutor da intriga. Resta o trabalho de cenografia investido no retrato das tarefas arqueológicas: o seu realismo constitui um factor invulgar neste tipo de "reconstituições", conferindo às personagens, apesar de tudo, alguma vibração humana e espessura psicológica.

Crítica de João Lopes
publicado 02:06 - 05 fevereiro '21

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